Seis milhões de aposentados e pensionistas brasileiros tiveram valores questionavelmente descontados entre 2019 e 2024, segundo investigações da Polícia Federal. O valor investigado chega a impressionantes R$ 6,3 bilhões. No centro deste escândalo está o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), que tem como vice-presidente José Ferreira da Silva, conhecido como “Frei Chico”, irmão do presidente Lula.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
O esquema bilionário sob investigação
A Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025 pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, revelou suspeitas de um esquema que causou prejuízo investigado de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, afetando 6 milhões de aposentados e pensionistas. O funcionamento era simples: entidades sindicais faziam descontos automáticos nos benefícios dos idosos alegadamente sem autorização.
Segundo relatório da CGU, 97% dos beneficiários entrevistados não autorizaram o desconto. As mensalidades estipuladas pelas entidades chegaram ao valor de R$ 81,57, uma quantia que, multiplicada por milhões de beneficiários, gerou uma fonte volumosa de recursos.
O esquema aproveitava a vulnerabilidade dos idosos e a falta de fiscalização efetiva. A CGU identificou que 70% das 29 entidades analisadas não entregaram a documentação completa ao INSS para a assinatura dos ACTs. Em outras palavras, operavam irregularmente desde o início.
As entidades investigadas supostamente não tinham sequer estrutura operacional para fornecer os serviços que ofereciam. Prometiam descontos em medicamentos, auxílio funeral, consultas médicas e outros benefícios que, segundo as investigações, jamais entregavam.
A omissão que levanta questionamentos
O caso do Sindnapi expõe uma controvérsia institucional que vai além das suspeitas financeiras. A CGU afirma em documento que o Sindnapi omitiu ao INSS a presença do irmão do presidente Lula no sindicato. Por lei, entidades que firmam parcerias com o governo não podem ter dirigentes com parentesco até segundo grau com agentes públicos.
Segundo a CGU, o sindicato prestou informações questionáveis ao INSS em 2023, declarando que não havia dirigentes com esse tipo de parentesco. A omissão permitiu que o Sindnapi continuasse operando normalmente, movimentando milhões em recursos públicos.
A entidade, cuja movimentação foi de R$ 1,2 bilhão em seis anos segundo a PF, está no rol de investigadas. Não é pouco dinheiro. Em apenas um período relativamente curto, o sindicato movimentou centenas de milhões de reais.
A defesa do sindicato tenta contextualizar a situação. Há narrativas sobre denúncias anteriores em governos passados. Uma versão conveniente para quem estava se beneficiando do sistema.
Servidores afastados e investigações em curso
Como desdobramento da investigação, o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi afastado do cargo e posteriormente preso. Ao todo, seis servidores públicos foram afastados durante a operação. As suspeitas não se limitavam às entidades externas, mas se estendiam ao próprio órgão responsável pela fiscalização.
A PF também apurou suspeitas envolvendo o então procurador-geral do INSS, Virgílio Oliveira Filho, que teria sido beneficiado financeiramente por meio da sua esposa. Empresas ligadas a ele receberam mais de R$ 11 milhões, além de um Porsche Taycan avaliado em mais de R$ 500 mil.
A operação apreendeu uma Ferrari F8, esculturas eróticas e uma réplica da McLaren MP4/8. O contraste é gritante: enquanto aposentados tinham seus parcos benefícios descontados, os operadores do esquema ostentavam carros de luxo.
Um problema que atravessa governos
Os descontos sob investigação ocorreram entre 2019 e 2024, período que envolve tanto o governo Jair Bolsonaro quanto o de Luiz Inácio Lula da Silva. O esquema não nasceu nem morreu com uma única administração. É um problema sistêmico que se alimenta da estrutura estatal.
O crescimento das operações foi exponencial nos últimos anos. Em 2022, o número de entidades que passaram a operar com descontos associativos se ampliou, bem como o quantitativo de valores repassados. Era uma bola de neve que crescia sem controle.
A cada novo governo, as estruturas de poder se mantêm. Mudam-se os ocupantes dos cargos, mas os mecanismos de favorecimento permanecem intactos. O Estado, por sua natureza concentradora, sempre oferece oportunidades para aqueles que sabem como navegar em suas águas turvas.
A máquina de concentrar poder e privilégios
Este escândalo ilustra perfeitamente como funciona a máquina estatal brasileira. Não é incompetência. É projeto. O Estado concentra poder suficiente para distribuir verbas, assinar contratos e controlar recursos trilionários. Essa concentração inevitavelmente atrai aqueles que buscam se beneficiar do sistema.
Entidades de classe formalizavam Acordos de Cooperação Técnica com o INSS, permitindo descontos diretos na folha de pagamento. O próprio Estado criou os mecanismos que permitiram as suspeitas. Depois, o mesmo Estado se apresenta como salvador, investigando e punindo.
É um teatro bem montado. A CGU investiga o INSS. O Ministério da Previdência promete soluções. A Polícia Federal prende os culpados. Mas quem criou as condições para que tudo isso acontecesse? O próprio Estado, com suas estruturas burocráticas e seus acordos de cooperação.
Segundo o ministro da CGU, “a ausência de fiscalização rigorosa permitia esse tipo de irregularidade. Isso ocorreu também em função do aumento do número de descontos, que foi gerando uma bola de neve”. Em outras palavras, o Estado admite sua própria incompetência na fiscalização, mas não questiona por que ela existe.
O custo real da centralização
Quando o Estado tem o poder de tomar recursos via impostos e decidir como redistribuí-los, ele se torna um instrumento de transferência forçada de riqueza. No caso do INSS, aposentados que trabalharam décadas para construir seus benefícios viram parte desses recursos supostamente desviados para sustentar uma rede de intermediários parasitas.
A AGU requereu o bloqueio de R$ 6,6 bilhões por meio de 37 ações cautelares. Decisões liminares já determinaram bloqueio de R$ 4,4 bilhões. São números astronômicos que revelam a dimensão do problema.
O governo promete ressarcir as vítimas, mas quem pagará essa conta? O próprio contribuinte, é claro. O governo anunciou a criação de uma força-tarefa para restituir dinheiro desviado. Mais recursos públicos sendo usados para corrigir falhas do próprio sistema público.
Murray Rothbard sempre alertou que o Estado é uma gangue de ladrões em larga escala que se protege através da burocracia e da propaganda. Este caso confirma sua análise: estruturas estatais são usadas para drenar riqueza dos produtivos para sustentar uma casta que vive do trabalho alheio.
A farsa da fiscalização estatal
A CGU recomendou ao INSS o bloqueio cautelar de novos descontos e o aprimoramento dos procedimentos relacionados aos Acordos de Cooperação Técnica, incluindo implementação de biometria e assinatura eletrônica. Soluções que deveriam ter existido desde o início.
Por que essas medidas básicas de segurança não estavam implementadas? Por que levou anos para descobrir que uma porcentagem significativa dos beneficiários afirmaram nunca ter autorizado as cobranças? A resposta é simples: não havia interesse real em fiscalizar.
Segundo investigações, dirigentes recebiam comissões toda vez que um aposentado tinha seu benefício descontado, valores que chegaram a milhões de reais. Era um esquema bem estruturado de enriquecimento às custas dos mais vulneráveis.
O Estado sempre promete mais fiscalização, mais controles, mais burocracia. Mas quanto mais cresce a máquina estatal, maiores se tornam as oportunidades para corrupção. É um círculo vicioso que só beneficia aqueles que controlam o poder.
O preço da credulidade popular
A tragédia deste escândalo não está apenas nos bilhões investigados, mas na ingenuidade de quem ainda acredita que o problema é apenas uma questão de “governo honesto”. O plenário da Câmara aprovou projeto proibindo descontos em benefícios, e o TCU determinou apuração das supostas irregularidades.
Mais leis, mais órgãos de controle, mais burocracia. A receita é sempre a mesma: usar o Estado para controlar o próprio Estado. É como pedir para o lobo vigiar o galinheiro e depois se surpreender quando as galinhas desaparecem.
Enquanto houver um governo capaz de concentrar trilhões em recursos e distribuí-los conforme critérios políticos, haverá uma fila de aproveitadores esperando sua vez. O problema não é quem está no poder, mas o poder em si.
As suspeitas de corrupção não começaram com Bolsonaro, não acabarão com Lula e não desaparecerão com nenhum sucessor. Elas são consequência natural da concentração de poder. Cada novo escândalo gera indignação momentânea, promessas de reforma e maior concentração de poder nas mãos do Estado “para evitar que isso se repita”.
Este caso do Sindnapi e do irmão de Lula é apenas mais um capítulo de uma história que se repete há décadas. O elenco muda, mas o roteiro permanece: concentrar poder, distribuir privilégios e proteger os envolvidos quando tudo vem à tona.
A verdadeira solução seria reduzir drasticamente o poder do Estado, deixando menos recursos para serem desviados e menos privilégios para serem vendidos. Mas essa conversa ninguém quer ter. É mais fácil trocar os figurantes e manter o espetáculo.
Diante de tantos bilhões investigados e milhões de idosos lesados, a pergunta que não quer calar é: quando o povo brasileiro vai perceber que o problema não está em quem governa, mas no tamanho do governo que permite esse tipo de roubo institucionalizado?



