A centenária Lupo investiu R$ 30 milhões para buscar alternativas ao cenário tributário brasileiro. A nova fábrica em Ciudad del Este tem capacidade para produzir 20 milhões de pares de meias por ano e gera 110 empregos diretos no Paraguai. A produção no país vizinho representa economia de 28% nos custos. Analistas interpretam essa mudança como reflexo das dificuldades que o ambiente tributário brasileiro impõe às empresas.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.
A lei que motivou a busca por alternativas
Um fator determinante foi a Lei 14.789/2023, sancionada por Lula da Silva no fim de 2023. A norma determina que as subvenções concedidas pelos estados, como aquelas relacionadas ao ICMS, passem a integrar a base de cálculo de tributos como o IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. O governo federal decidiu tributar também os incentivos que governos locais davam para atrair empresas.
“Os impostos estão comendo a operação de forma violenta”, declarou Liliana Aufiero, CEO da Lupo, em entrevista à Folha de S.Paulo, conforme reportado pela Gazeta do Povo. Ela é a última representante da família no comando da empresa fundada em 1921 pelo avô italiano Henrique Lupo. “Não é que a Lupo foi para o Paraguai, o Brasil empurrou a gente para o Paraguai”, afirmou a executiva.
A empresa não estava exagerando. Segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, das 332 indústrias com programas de maquila em vigor em 2024, 223 são brasileiras, representando 69% do total. Todas buscam as mesmas vantagens: fugir da complexa estrutura tributária brasileira. O ritmo se acelerou justamente nos últimos anos, com o aperto fiscal do governo atual.
O que gestores públicos não percebem é simples: cada empresa que sai leva consigo empregos, impostos e conhecimento. A Lupo, por exemplo, emprega 9 mil funcionários no Brasil e faturou R$ 1,85 bilhão em 2024. Parte dessa riqueza agora vai beneficiar o Paraguai, não o Brasil.
Como o Paraguai se tornou mais atrativo que o Brasil
Enquanto o Brasil complica, o Paraguai simplifica. O país vizinho mantém tributação de apenas 1% sobre o valor agregado em território paraguaio, além de isenção de impostos sobre matéria-prima e maquinário para empresas estrangeiras que produzem para exportação. Compare isso com a complexa teia tributária brasileira, onde uma empresa paga dezenas de impostos diferentes.
A Lupo aderiu ao regime de maquila paraguaio, inaugurando a unidade em Ciudad del Este em junho. A localização não é coincidência: reduz custos logísticos e permite acesso fácil ao mercado brasileiro. É irônico — empresas brasileiras produzindo no exterior para vender no próprio Brasil.
Os encargos trabalhistas também pesam na decisão. No Paraguai, os encargos sociais são 35% mais baixos que no Brasil, somado à tributação menor. Enquanto no Brasil o gasto com eletricidade no setor industrial custa, em média, 0,101 USD/KWH, no Paraguai esse valor gira em torno de 0,042 USD/KWH.
O Paraguai oferece ainda energia elétrica barata e proximidade com o mercado brasileiro. Estima-se que 6 de cada 10 produtos fabricados nas maquiladoras paraguaias são vendidos de volta ao Brasil. Ou seja: as empresas produzem lá com custos menores e vendem aqui com preços competitivos.
Os números que mostram o tamanho da migração empresarial
A migração empresarial para o Paraguai não é fenômeno isolado — é êxodo em massa. A Lupo se juntou a outras 229 indústrias brasileiras que cruzaram a fronteira nos últimos anos, incluindo Guararapes e Buddemeyer. Todas seguem o mesmo roteiro: custos insustentáveis no Brasil, operação viável no Paraguai.
A própria Lupo admite que enfrenta pressão da concorrência asiática. A importação representa 52% do mercado nacional de meias. Com custos de produção elevados no Brasil, competir com produtos importados baratos torna-se missão impossível.
Dados da Abit indicam que o Brasil exporta o quilo de produto manufaturado por US$ 20, enquanto a China exporta por US$ 11 ou US$ 13 o quilo. A diferença não está apenas na mão de obra: está na carga tributária que torna o “custo Brasil” incompetitivo globalmente.
As consequências aparecem nos números. No terceiro trimestre, a Lupo teve apenas R$ 8,2 milhões em receita com exportações, 2% do faturamento de R$ 402 milhões. É impossível crescer exportando quando os custos internos são proibitivos.
Por que empresas migram (e continuarão migrando)
O caso da Lupo ilustra um princípio básico da economia que políticos aparentam não compreender: capital é móvel, fronteiras não são barreiras intransponíveis. Quando um governo aperta demais o cerco tributário, quem tem recursos simplesmente busca alternativas. Fica quem não pode sair — geralmente quem não contribuía significativamente mesmo.
Há debates sobre se “taxar os ricos” resolve problemas quando os ricos mudam de endereço. No Paraguai, empresários chineses vendem no Brasil sem investir em marca, oferecendo produtos a custos menores. “Se ele consegue vender no Brasil sem investir em marca, e oferecer um bom produto a um custo menor, eu tenho que ter as mesmas vantagens”, declarou a CEO da Lupo.
O governo atual insiste na fórmula controversa de aumentar impostos para supostamente promover equidade social. O resultado prático gera questionamentos: menos empresas, menos empregos, questionável arrecadação. Quando uma centenária como a Lupo busca alternativas para sobreviver, surgem debates sobre se o problema está na empresa ou no sistema que alguns interpretam como hostil ao empreendedorismo.
Pessoas físicas também estão migrando. Profissionais que trabalham remotamente — programadores, consultores, analistas — podem escolher onde morar. Entre pagar imposto elevado no Brasil ou viver com qualidade superior no Paraguai, a escolha torna-se evidente para muitos. Analistas sugerem que o governo brasileiro está inadvertidamente incentivando a migração de seus próprios cidadãos mais produtivos.
O Paraguai comemora o que o Brasil perde
Enquanto o Brasil lamenta a saída de empresas, o Paraguai celebra. Veículos de imprensa destacam como o país pode beneficiar-se das mudanças tributárias no Brasil. O país vizinho compreende algo que nossos gestores aparentemente ignoram: impostos baixos atraem investimentos, impostos altos afastam empresas.
Missões comerciais da CNI e Apex-Brasil têm incentivado empresas brasileiras a conhecer o mercado paraguaio. Cerca de 700 empresários já participaram dessas missões desde 2012. Há uma ironia que beira o paradoxo: órgãos brasileiros promovendo conhecimento sobre oportunidades paraguaias para empresas escaparem dos impostos brasileiros.
O regime de maquila paraguaio é exemplo de política pública pragmática. As operações estão isentas de todos os impostos relacionados ao processo produtivo, com apenas um imposto único de 1% sobre o valor adicionado. Resultado: atrai investimentos, gera empregos e aumenta a arrecadação total através do volume.
A estratégia funciona. Segundo dados do CNIME, 180 das 248 empresas estrangeiras operando no Paraguai são brasileiras, representando 72% do total. O Brasil tornou-se o principal cliente dos produtos fabricados no Paraguai sob a Lei de Maquila. Em outras palavras: empresas brasileiras produzem no Paraguai para vender no Brasil.
As consequências que merecem atenção
A migração empresarial gera efeitos em cadeia que vão além dos impostos perdidos. Cada empresa que sai leva fornecedores, prestadores de serviços e uma rede inteira de negócios. Especialistas levantam preocupações sobre riscos de desindustrialização. Muitas empresas consideram mais eficiente produzir no Paraguai e importar, pois o custo é inferior ao da produção local.
O problema se agrava porque o Brasil está perdendo a janela demográfica. A população brasileira envelhece rapidamente e a taxa de natalidade já está abaixo da reposição. Em poucos anos, haverá menos brasileiros em idade produtiva para sustentar um número crescente de aposentados. Nesse cenário, perder empresas e empreendedores gera preocupações econômicas significativas.
Países desenvolvidos já enfrentam competição acirrada para atrair talentos e investimentos. O Brasil caminha na direção oposta, como se tivesse empresários e trabalhadores qualificados sobrando. A realidade pode cobrar essa conta em breve, quando o país precisar desesperadamente de quem está perdendo hoje.
A questão não é ideológica, é matemática. Um país que perde quem produz riqueza e atrai quem consome recursos públicos enfrenta desafios de sustentabilidade. O caso da Lupo representa apenas um exemplo de uma dinâmica econômica que confunde igualdade com empobrecimento geral.
O que isso significa para você
Se você acha que a saída da Lupo não te afeta, pode estar enganado. Cada empresa que deixa o Brasil reduz a concorrência interna, aumenta preços e diminui opções para o consumidor. Quando há menos empresas competindo, quem arca com os custos é quem compra os produtos.
A arrecadação também pode ser impactada. Menos empresas significa menos impostos recolhidos, o que pode forçar o governo a apertar ainda mais quem fica. É um ciclo que pode se tornar problemático: mais impostos afastam mais empresas, que geram necessidade de mais impostos sobre os restantes. No fim, sobra a conta para o trabalhador assalariado que não pode mudar de país.
Os empregos perdidos não se limitam à fábrica. Economistas estimam que cada posto de trabalho industrial sustenta outros três na economia. Quando a Lupo transfere produção para o Paraguai, não perde apenas os 110 empregos diretos criados lá. Perde os empregos indiretos que deixaram de ser criados no Brasil: fornecedores, transportadores, prestadores de serviço.
Para profissionais qualificados, a mensagem é clara: considere suas opções. Se pode trabalhar remotamente, outros países podem oferecer melhor custo-benefício. Se tem empresa, pode ser mais lucrativo operar fora e vender no mercado brasileiro. O país corre o risco de se transformar em mercado consumidor de riqueza produzida em outros lugares.
Conclusão: quando o Estado se torna obstáculo
O caso da Lupo expõe contradições da retórica governamental. Enquanto políticos fazem discursos sobre “desenvolvimento nacional” e “soberania econômica”, suas políticas podem estar afastando justamente as empresas que poderiam tornar esses objetivos realidade. Críticos sugerem que um governo que cresce às custas da iniciativa privada pode ter interesse em manter o setor produtivo dependente e frágil.
A migração para o Paraguai não representa traição empresarial — é estratégia de sobrevivência. Quando um governo trata empresários como fonte inesgotável de recursos, não pode reclamar quando eles buscam ambientes mais favoráveis. O problema não está na “ganância empresarial”, está na voracidade estatal que aparenta não reconhecer limites.
A Lupo resistiu 104 anos no Brasil. Sobreviveu a ditaduras, crises econômicas e transformações sociais. Emprega 9 mil funcionários e faturou R$ 1,85 bilhão em 2024. Mas chegou ao ponto de buscar alternativas devido à pressão tributária do governo atual. Se uma empresa centenária, com tradição familiar e vínculos profundos com o país, decide que precisa diversificar operações, imagine o recado para quem está chegando ao mercado.
Afinal, você ainda acredita que aumentar impostos sobre empresas vai resolver os problemas do Brasil? Ou já percebeu que as empresas simplesmente não ficam para pagar a conta indefinidamente? A Lupo já deu sua resposta. E outras 229 empresas também.



