As contas do governo fecharam novembro de 2025 com um rombo de R$ 20,2 bilhões em apenas um mês. No acumulado do ano, o déficit já atingiu R$ 83,8 bilhões. Se incluirmos os juros da dívida, o déficit nominal ultrapassa R$ 1 trilhão nos últimos 12 meses, equivalente a 8,16% do PIB brasileiro. O governo promete cumprir a meta fiscal, mas os números mostram uma realidade bem diferente.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.
O tamanho real do buraco fiscal
Para entender a gravidade da situação, é preciso olhar além dos números oficiais. O déficit de novembro representa uma piora expressiva em relação ao mesmo mês de 2024, quando o saldo negativo foi de R$ 4,5 bilhões. A deterioração é evidente: saímos de um rombo mensal de R$ 4,5 bilhões para R$ 20,2 bilhões em apenas um ano.
O desempenho foi resultado de uma combinação explosiva: queda de 4,8% na arrecadação e crescimento de 4% nas despesas. A Previdência Social puxou o aumento das despesas, saltando R$ 36,4 bilhões em termos reais devido aos reajustes do salário mínimo. O governo gasta R$ 3,9 bilhões a mais apenas em despesas discricionárias do Poder Executivo.
O governo arrecada R$ 166,9 bilhões por mês e gasta R$ 187 bilhões. É como uma família que ganha R$ 1.600 e gasta R$ 1.800. Qualquer pessoa consciente cortaria gastos, ajustaria o padrão de vida. Mas o governo simplesmente aumenta impostos e taxas sobre o trabalhador brasileiro.
Para dimensionar o tamanho do rombo anual de R$ 83 bilhões, esse valor poderia construir 441 mil casas populares do programa Minha Casa, Minha Vida. Ou ainda 16 mil escolas novas para 500 mil estudantes. Poderia financiar 10 mil UPAs para atender 3 milhões de pessoas por dia. Esse é o dinheiro desperdiçado que poderia transformar a vida de milhões de brasileiros.
A maquiagem contábil para “cumprir” a meta
Mesmo com R$ 83,8 bilhões de rombo, o governo vai dizer que cumpriu a meta fiscal. Pelas regras do arcabouço fiscal, o governo pode ter um déficit de até R$ 31,3 bilhões sem descumprir formalmente a meta. Com os abatimentos permitidos, incluindo precatórios, o governo pode registrar déficit de até R$ 75,8 bilhões sem descumprir a meta.
Desde 2023, o governo gastou mais de R$ 170 bilhões fora das regras do arcabouço fiscal. Entre os abatimentos legais estão precatórios, despesas das Forças Armadas, auxílios a empresas afetadas pelo tarifaço americano, aportes no PAC e reestruturação dos Correios. Para a IFI, essa prática compromete a função principal de qualquer regra fiscal: disciplinar gastos.
É como chegar no gerente do banco pedindo empréstimo e dizer: “Ganho R$ 5 mil, gasto R$ 5.500, mas cumpro meu orçamento porque os R$ 1.500 de aluguel eu risquei da conta”. O gerente te negaria o empréstimo na hora. Mas o governo faz exatamente isso com as contas públicas.
Na prática, funciona como uma contabilidade paralela, onde despesas com precatórios, aportes em estatais e gastos militares não entram no limite principal. Segundo Marcus Pestana, diretor da IFI, isso gera “esvaziamento da credibilidade do arcabouço”.
O déficit nominal de R$ 1 trilhão
O déficit nominal do Brasil somou mais de R$ 1 trilhão nos últimos 12 meses. A despesa com juros atingiu recorde histórico, totalizando R$ 987,2 bilhões. O Brasil gastou 7,88% do PIB apenas com juros da dívida.
Para colocar em perspectiva, o Brasil caminha para ter o segundo maior déficit nominal do mundo em 2025. Perdemos para Venezuela, Índia e outros países emergentes. Somos o único país importante do ranking que está piorando entre 2024 e 2025, enquanto outros países melhoram suas contas.
A dívida bruta do governo geral passou de 71,7% do PIB no último ano do governo anterior para 78,1% atualmente, um aumento de 6,4 pontos percentuais. Durante o governo atual, a dívida bruta subiu 6,6 pontos percentuais. O endividamento acelera enquanto o discurso fala em responsabilidade fiscal.
Com juros altos e dívida crescente, o país fica numa armadilha: precisa de superávit primário cada vez maior só para estabilizar a dívida em relação ao PIB. A IFI estima ser necessário superávit primário de 2,3% do PIB para estabilizar a dívida, algo praticamente impossível no cenário atual.
A arrecadação despenca e os gastos explodem
A receita líquida caiu 4,8% em termos reais em novembro, enquanto as despesas cresceram 4%. O principal impacto veio das receitas não administradas, que despencaram 52,5%, equivalente a R$ 16,7 bilhões. Em novembro de 2024 houve ingressos extraordinários que não se repetiram em 2025, como dividendos do BNDES.
Quando a arrecadação cai e os gastos sobem, você sabe onde isso vai parar: em mais impostos para o trabalhador brasileiro. O governo não vai cortar privilégios, não vai reduzir mordomias. É mais fácil meter a mão no bolso de quem trabalha e aceita tudo calado.
No acumulado do ano, a receita líquida cresceu 2,9% enquanto as despesas avançaram 3,4%. Os benefícios previdenciários saltaram R$ 36,4 bilhões devido aos reajustes do salário mínimo. O BPC gerou impacto adicional de R$ 10,2 bilhões no resultado primário.
A combinação é explosiva: receitas caindo, gastos obrigatórios subindo automaticamente, e um governo que se recusa a fazer o dever de casa básico de qualquer administração responsável. O resultado é sempre o mesmo: mais impostos, mais taxas, mais contribuições para o cidadão que já paga uma das maiores cargas tributárias do mundo.
Brasil entre os países com pior situação fiscal
Os dados internacionais mostram a gravidade da situação brasileira. O Brasil deverá encerrar o mandato atual com o maior déficit nominal médio desde o Plano Real. O país ocupa a segunda posição entre emergentes com maior dívida pública, atrás apenas da China.
Com endividamento em 87,6% do PIB, o Brasil ultrapassa economias como Índia, África do Sul, México e Rússia. Isso amplia a percepção de risco e pressiona o custo de financiamento interno. O mercado cobra juros mais altos porque não confia nas contas públicas brasileiras.
O endividamento elevado, juros persistentes e déficit crescente aumentam a vulnerabilidade do país. Sem mudança de rota, o Brasil pode entrar em 2027 com uma das menores margens fiscais da história nas últimas décadas. A situação já chama atenção do cenário internacional.
Enquanto outros países emergentes conseguem melhorar suas contas fiscais, o Brasil nada contra a corrente. Nossa trajetória é de deterioração acelerada, com um governo que prefere maquiagem contábil a responsabilidade fiscal real.
As consequências para o trabalhador brasileiro
Quem paga essa conta não é o governo, não são os políticos, não são os economistas da televisão. Quem paga é você, trabalhador brasileiro. O resultado da perda de credibilidade é que investidores ignoram as metas oficiais e focam apenas na dívida pública. Isso mantém os juros altos e restringe o crédito.
Com juros elevados, seu financiamento fica mais caro, a prestação do carro sobe, a parcela do cartão explode. O crédito some do mercado. As empresas não conseguem investir, não geram empregos que pagam bem. O resultado é um país de trabalhadores que mal conseguem fechar as contas no final do mês.
O governo tenta equilibrar as contas apenas aumentando impostos, mas essa estratégia encontra resistência já que o Brasil possui uma das maiores cargas tributárias entre países emergentes. O brasileiro já é líder em carga tributária na América Latina.
Os serviços públicos pioram a cada ano. Saúde, educação, segurança – tudo deteriora enquanto os gastos explodem. O dinheiro vai para mordomias, privilégios e ineficiências do aparelho estatal. Sobra migalha para o que realmente importa para o cidadão comum.
Por que essa bomba ainda não explodiu
A bomba fiscal ainda não explodiu por alguns fatores. Primeiro, o Brasil ainda consegue rolar sua dívida no mercado interno. Segundo, parte dos investidores ainda acredita que o governo pode fazer o ajuste necessário. Terceiro, a economia mundial ainda oferece liquidez para países emergentes.
Mas esses fatores são temporários. Os dados mostram que até outubro o governo já gastou R$ 63,4 bilhões a mais do que arrecadou. A conclusão dos especialistas é que não há mais espaço para puxadinhos contábeis, e o ajuste fiscal tornou-se inevitável.
O governo pode enganar por algum tempo, pode usar truques contábeis, pode empurrar despesas para fora das regras. Mas a matemática é implacável. Uma hora a conta chega. E quando chegar, vai doer muito mais do que se o ajuste fosse feito agora.
A IFI é clara: os números “revelam inequivocamente a insustentabilidade do atual regime fiscal”. É exatamente o drama que o Brasil vive hoje em suas contas públicas, e os números mostram que a corda segue esticando.
A farsa da “meta cumprida” em ano eleitoral
2026 é ano de eleição, e você pode ter certeza: o governo vai dizer que cumpriu todas as metas fiscais. Com as manobras para tirar despesas do arcabouço, o governo deve fechar 2025 dentro da meta fiscal. A projeção é déficit de 0,6% do PIB, permitindo cumprimento da meta usando a banda inferior.
Mas para 2026, a situação muda completamente. A projeção é déficit de 0,7% do PIB, equivalente a R$ 92,4 bilhões, quando a meta é superávit de R$ 34,3 bilhões. A meta fiscal de 2026 precisará ser alterada.
É a velha história brasileira: promete-se o céu na campanha, entrega-se o inferno na prática. O eleitor vota baseado em promessas que são matematicamente impossíveis de cumprir. A conta sempre sobra para depois, sempre sobra para o próximo governo, sempre sobra para o trabalhador.
O acordo que viabilizou a aprovação da LDO conseguiu normalizar o fracasso do arcabouço fiscal, ancorado numa troca política: mais espaço para gastos em ano eleitoral em troca de recursos para o Congresso. É assim que funciona: sua conta bancária paga a festa política de quem deveria cuidar do dinheiro público.
Enquanto o brasileiro está distraído com festas de fim de ano, Natal e Réveillon, o governo torrar bilhões e prepara o discurso de que tudo está indo muito bem. Há um ano, o déficit nominal era de R$ 1,065 trilhão. Hoje está em R$ 1,018 trilhão. A melhora é marginal, mas o governo vai vendê-la como grande vitória.
A verdade é que cada Real torrado nessa irresponsabilidade fiscal é um Real a menos para saúde, educação, segurança. É um Real a menos no bolso do trabalhador brasileiro. É um Real que poderia estar construindo um país melhor, mas está sendo desperdiçado em ineficiência e má gestão.
O Brasil tem potencial para ser uma potência mundial. Tem recursos naturais, tem povo trabalhador, tem território continental. Mas enquanto insistirmos nessa gestão irresponsável das contas públicas, vamos continuar sendo apenas um país de potencial desperdiçado. A conta dessa irresponsabilidade sempre chega, e sempre chega para quem menos pode pagar.
Diante de todos esses números, de toda essa irresponsabilidade fiscal mascarada por truques contábeis, a pergunta que fica é: até quando você vai aceitar pagar essa conta?


