
Uma Mercedes-Benz 2025 avaliada em 89 mil dólares (cerca de R$ 400 mil) foi o resultado mais concreto da profecia do dilúvio que destruiria o mundo no Natal de 2025. O profeta ganês Ebo Noah adquiriu o veículo de luxo com doações de seguidores que acreditavam estar financiando as arcas para sobreviver ao fim dos tempos. Enquanto milhares aguardavam o apocalipse nas praias de Gana, o único que se salvou da enchente foi o bolso do suposto profeta.
Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em debates públicos e fontes abertas. Não afirma como fatos comprovados condutas ilegais ou ilícitas. Seu objetivo é promover reflexão crítica sobre temas de interesse público.
A profecia que moveu multidões e R$ 400 mil
Ebo Noah, de 30 anos, começou em agosto de 2025 a divulgar vídeos nas redes sociais mostrando a construção de arcas de madeira e alertando que um período de chuvas de três anos começaria no dia 25 de dezembro de 2025. A narrativa era simples e aterrorizante: Deus revelara que o mundo seria destruído por águas, assim como nos tempos bíblicos de Noé.
Em pouco tempo, o autoproclamado profeta acumulou mais de um milhão de seguidores no TikTok, afirmando que cerca de 380 mil pessoas se preparavam para se reunir nos momentos finais antes da catástrofe. A estratégia era calculada: criar urgência, oferecer salvação e cobrar por ela.
Relatos indicam que Ebo Noah construiu aproximadamente dez arcas de madeira com a ajuda de pescadores locais, estruturas significativamente menores que a arca bíblica descrita em Gênesis. Para quem observava de fora, as embarcações pareciam mais barcos de pesca comuns do que navios destinados a salvar a humanidade.
Apesar da natureza extraordinária das alegações, milhares de pessoas acreditaram na história. Alguns venderam suas casas e pertences, enquanto outros entregaram dinheiro em troca de um lugar garantido nos navios. A fé moveu montanhas de dinheiro na direção certa: para a conta bancária do profeta.
Mercedes na garagem, multidões nas praias
Enquanto Ebo Noah desfilava com uma Mercedes-Benz 2025 avaliada em 89 mil dólares, multidões vindas de Gana, Benin e Libéria venderam seus pertences e acamparam próximo às supostas arcas. O contraste era gritante: o salvador dirigia um carro de luxo, os salvos dormiam ao relento.
Um homem liberiano foi flagrado em vídeo sentado ao lado de sua mala em Elmina, Gana, visivelmente frustrado e incerto sobre o próximo passo. Ele estava entre as milhares de pessoas, incluindo ganeses e estrangeiros, que viajaram em direção às supostas arcas. A imagem resume a situação: pessoas simples abandonaram suas vidas para seguir uma fantasia vendida por quem nunca pretendeu embarcar.
Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram multidões se reunindo perto das estruturas de madeira aguardando o evento predito. As praias ficaram superlotadas de pessoas desesperadas por salvação, enquanto o profeta colhia os frutos financeiros de sua pregação.
Curiosamente, Ebo Noah declarou repetidamente que não estava vendendo ingressos nem coletando dinheiro dos seguidores. Uma afirmação que soa estranha diante da Mercedes zerada em sua garagem. Como dizem por aí: as ações falam mais alto que as palavras.
O governo tenta frear a máquina de fazer dinheiro
Autoridades ganesas prenderam Ebo Noah em dezembro por preocupações de que suas declarações estavam causando pânico público, mantendo-o sob custódia por 72 horas antes de soltá-lo. A prisão foi breve, mas suficiente para mostrar que até governos africanos têm limites para tolerar charlatanismo.
Depois de 72 horas, foi determinado que compartilhar profecias religiosas não era tecnicamente ilegal, levando à sua liberação. Uma decisão que revela como a linha entre liberdade religiosa e estelionato pode ser tênue na prática jurídica.
A prisão seguiu relatórios de que suas mensagens instilaram medo generalizado, particularmente entre residentes vivendo na Europa. As previsões sobre uma enchente global causaram ansiedade desnecessária entre o público. Quando brasileiros no exterior começam a mandar dinheiro para profetas, é sinal de que a coisa saiu do controle.
O incidente reacendeu discussões em Gana sobre a influência de autoproclamados profetas e o equilíbrio entre liberdade religiosa e segurança pública. É o dilema eterno: onde termina a fé e começa a exploração?
Véspera do fim: dilúvio adiado por oração (e Mercedes)
No dia 24 de dezembro, véspera do suposto apocalipse, Ebo Noah instruiu os seguidores a ficarem em casa e celebrarem o Natal e o Ano Novo com suas famílias, declarando que a enchente não ocorreria em 25 de dezembro como originalmente declarado. Que conveniente: justo quando a conta bancária estava cheia, Deus mudou de ideia.
Em uma mensagem de vídeo compartilhada nas redes sociais, Ebo Noah declarou que recebeu uma nova visão mostrando grandes números de pessoas se reunindo para entrar em suas arcas, mas as estruturas existentes não podiam acomodar todos. A desculpa era criativa: havia fé demais para tão pouco barco.
Ele explicou que, após orações com o que descreveu como “grandes homens de Deus”, Deus supostamente concedeu mais tempo para que arcas adicionais fossem construídas para acomodar todos. Mais tempo significa mais doações, evidentemente.
Quando confrontado com as escrituras bíblicas que prometem que Deus nunca mais destruiria a terra com enchentes, Ebo Noah respondeu que até Deus pode mudar de ideia, referenciando o relato bíblico do Rei Ezequias. Uma interpretação teológica flexível para uma estratégia financeira rígida.
Consequências reais de uma mentira lucrativa
O caso do profeta ganês não é apenas uma anedota exótica. É um exemplo perfeito de como a exploração da fé pode gerar lucros astronômicos às custas de pessoas vulneráveis. Enquanto Ebo Noah colecionava carros de luxo, famílias inteiras abandonaram suas vidas baseadas em uma mentira bem contada.
A imagem do homem liberiano sentado com sua mala em Elmina resume o drama humano por trás da farsa financeira. Quantas pessoas venderam tudo, viajaram milhares de quilômetros e ficaram sem nada por acreditar em um charlatão de Mercedes?
Chuvas recentes em Gana intensificaram os medos entre alguns crentes, com várias pessoas levando a profecia a sério o suficiente para fazer preparações. O clima ajudou a vender a história, mostrando como elementos naturais podem ser usados para manipular emoções e carteiras.
A pergunta que fica é simples: quantos Ebo Noahs existem pelo mundo vendendo passagens para salvações que nunca virão? E quantas pessoas continuarão pagando pela tranquilidade de uma mentira em vez de enfrentar as incertezas da realidade?
O padrão eterno: promessas celestiais, lucros terrestres
A história de Ebo Noah segue um roteiro conhecido: profeta surge com revelação exclusiva, cobra pelos serviços espirituais, acumula riquezas e some quando as promessas não se cumprem. O padrão se repete porque funciona, e funciona porque sempre há pessoas dispostas a terceirizar suas esperanças.
Em entrevistas, Ebo Noah chegou a afirmar que sua arca poderia acomodar 600 milhões de pessoas no mundo todo. Uma capacidade impressionante para estruturas que pareciam barcos de pesca. Mas números grandiosos vendem melhor que realidades modestas.
O mais revelador é que vídeos posteriores mostraram Ebo Noah aparecendo no Rapperholic, um concerto anual de hip-hop realizado no Natal – exatamente o dia em que o mundo deveria ter acabado. Enquanto seus seguidores esperavam o dilúvio, o profeta curtia um show. A prioridade estava clara.
Não é incompetência. É projeto. O sistema funciona exatamente como foi desenhado: transferir dinheiro dos bolsos dos fiéis para as contas dos espertos. E a Mercedes na garagem é a prova de que o projeto deu certo.
Mercedes comprada, fé vendida: o balanço final
Ao final de 2025, o mundo não acabou, mas algumas contas bancárias se encheram. Em 26 de dezembro, a catástrofe predita não se materializou, e Gana continuou suas operações normais. A vida seguiu, exceto para aqueles que perderam tudo acreditando em um homem que nunca perdeu nada.
A lição é antiga mas sempre atual: quando alguém vende certezas sobre o futuro, o único futuro garantido é o lucro do vendedor. Ebo Noah provou isso mais uma vez, dirigindo sua Mercedes enquanto seus seguidores voltavam para casa de mãos vazias.
O mais irônico é que o próprio profeta pode ter sido sincero em parte de sua pregação. Afinal, ele realmente previu uma grande enchente – a de dinheiro que inundaria sua conta bancária. Nessa profecia, ele foi certeiro.
E você, ainda acredita em salvadores que dirigem Mercedes? Ou já percebeu que a única coisa que eles realmente salvam são seus próprios patrimônios?


