
Jair Bolsonaro passou por uma cirurgia de hérnia na manhã desta quarta-feira, 25 de dezembro de 2025, em Brasília. Quatro horas de procedimento, sem intercorrências. Mas o que chamou atenção foi o documento que ele redigiu antes de entrar no centro cirúrgico: uma carta nomeando oficialmente Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência em 2026.
A carta, escrita à mão e assinada pelo ex-presidente, tem um tom solene e quase testamentário. “Diante desse cenário de injustiça e com compromisso de não permitir que a vontade popular seja silenciada, tomo a decisão de indicar Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência da República em 2026”, diz o texto.
O timing não foi casual. Bolsonaro sabia dos riscos envolvidos em qualquer cirurgia abdominal, especialmente considerando sua idade e o histórico de múltiplas operações desde a facada de 2018. A carta funcionou como uma garantia: caso algo desse errado, sua escolha política estaria registrada em papel.
A cirurgia que durou quatro horas
O procedimento começou às 9 horas da manhã e se estendeu por aproximadamente quatro horas. Não foi uma cirurgia simples. Bolsonaro desenvolveu hérnias dos dois lados do abdome, consequência das múltiplas intervenções cirúrgicas que sofreu após o atentado de setembro de 2018.
Diferentemente das cirurgias modernas feitas por videolaparoscopia, o ex-presidente precisou passar por um procedimento aberto. Isso significa cortar a pele e abrir efetivamente a região abdominal. O método é mais invasivo e demanda maior tempo de recuperação, mas era necessário devido às particularidades do caso.
A idade avançada de Bolsonaro e seu extenso histórico cirúrgico tornaram o procedimento mais delicado. Qualquer cirurgia que envolva abertura da cavidade abdominal carrega riscos inerentes: infecções, complicações anestésicas, problemas na cicatrização. Por isso a carta foi redigida como precaução.
Felizmente, tudo correu conforme o planejado. O ex-presidente foi encaminhado ao quarto ainda sob efeito da anestesia, mas com prognóstico positivo. Os médicos relataram que não houve nenhuma intercorrência durante o procedimento.
A carta que oficializa uma escolha já conhecida
O conteúdo do documento não surpreendeu ninguém que acompanha a política brasileira. Flávio Bolsonaro já vinha sendo tratado como o herdeiro político natural do pai há meses. A novidade foi a formalização por escrito, com data e assinatura do próprio Bolsonaro.
“Entrego o que há de mais importante na vida de um pai, o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil”, escreveu Bolsonaro na carta datada de 25 de dezembro de 2025. O texto revela o caráter quase dinástico da decisão: transferir o capital político familiar para a próxima geração.
A escolha de Flávio não foi por acaso. Entre os filhos de Bolsonaro envolvidos na política, ele é considerado o mais articulado e experiente. Senador pelo Rio de Janeiro, Flávio construiu uma base política própria e mantém bom trânsito entre os apoiadores do pai.
O documento também serve como blindagem contra futuras contestações. Com a carta registrada e assinada, fica impossível questionar a legitimidade da indicação. Qualquer tentativa de divisão no campo bolsonarista agora esbarrará no documento oficial do patriarca.
O tom testamentário que preocupa
O aspecto mais impressionante da carta é seu caráter quase testamentário. Bolsonaro redigiu o texto como se fosse uma última vontade, evidenciando sua real preocupação com os riscos da cirurgia. “Ao longo da minha vida, tenho enfrentado duras batalhas, pagando um preço alto com a minha saúde e família”, começou o documento.
Essa precaução revela o quanto o ex-presidente está ciente de sua condição de saúde. Aos 70 anos, com múltiplas cirurgias no histórico, qualquer procedimento médico ganha contornos mais sérios. A decisão de formalizar a sucessão antes da cirurgia demonstra responsabilidade política, mas também uma dose de pessimismo.
Paulo Henrique Araújo, comentarista político, captou bem o espírito do documento: “Essa carta ficou com ar de ‘se algo acontecer, já deixei registrado'”. De fato, a linguagem solene e o momento escolhido para a redação não deixam dúvidas sobre as intenções.
O próprio Flávio Bolsonaro leu a carta para a imprensa após a cirurgia, sacramentando publicamente sua candidatura para 2026. A escolha do momento – véspera de Natal, com o pai recém-saído do centro cirúrgico – confere dramaticidade ao anúncio.
A estratégia política por trás da formalização
Embora todos já soubessem que Flávio seria o candidato, a formalização por escrito tem objetivos estratégicos claros. Primeiro, elimina qualquer margem para questionamentos internos. No mundo político, onde alianças mudam rapidamente, ter um documento assinado vale mais que declarações verbais.
Segundo, a carta estabelece uma narrativa de continuidade. Bolsonaro não está apenas indicando um sucessor; está passando uma tocha, transferindo simbolicamente seu projeto político para o filho. “Ele é a continuidade do caminho de prosperidade que iniciei bem antes de ser presidente”, afirma o texto.
A linguagem religiosa também não é casual. “Que Deus abençoe e o capacite na liderança dessa corrente de milhões de brasileiros que honra a Deus, pátria, família e liberdade” conecta diretamente com a base evangélica que sustenta o bolsonarismo. É uma bênção paterna com verniz religioso.
O documento ainda serve como proteção jurídica. Com Bolsonaro enfrentando diversos processos na Justiça, ter sua escolha política formalizada em papel pode ser útil caso surjam tentativas de impugnação da candidatura de Flávio por ligação com o pai.
Os riscos de uma sucessão dinástica
A opção pela continuidade familiar traz desafios evidentes. Flávio Bolsonaro precisará provar que é mais do que apenas o filho do ex-presidente. Terá que construir uma identidade política própria, capaz de mobilizar os mesmos eleitores que apoiaram o pai, mas sem parecer uma mera extensão dele.
A estratégia funcionou parcialmente bem com outros políticos brasileiros – casos como os Sarney, os Calheiros e tantas outras dinastias políticas regionais. Mas a presidência da República é outro patamar. Exige carisma, capacidade de comunicação e habilidade para formar alianças em escala nacional.
Flávio tem vantagens evidentes: conhece a máquina política, herdará toda a estrutura de apoio do pai e conta com uma base eleitoral consolidada. Mas também carregará o peso das polêmicas paternas e precisará lidar com o desgaste natural de qualquer projeto político após anos no poder ou na oposição.
O mercado político brasileiro não costuma ser generoso com sucessões planejadas. O eleitor valoriza renovação, especialmente em momentos de crise econômica e institucional. Flávio terá que equilibrar a herança política paterna com a necessidade de apresentar algo novo.
O que esperar de Flávio Bolsonaro como candidato
A candidatura de Flávio representa uma aposta na institucionalização do bolsonarismo. Diferente do pai, que chegou ao poder surfando uma onda anti-sistema, Flávio é um político tradicional. Senador experiente, conhece as regras do jogo e tem trânsito no Congresso Nacional.
Essa característica pode ser uma vantagem ou desvantagem, dependendo do humor do eleitorado em 2026. Se os brasileiros estiverem cansados de polarização e conflitos institucionais, um Bolsonaro mais “palatável” pode atrair votos. Se quiserem manter o confronto, podem preferir figuras mais radicais.
A carta de Bolsonaro deixa claro que a candidatura de Flávio não é improviso. “Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo de preservar a representação daqueles que confiaram em mim”, escreveu o ex-presidente. É um projeto de poder de longo prazo, não uma solução de emergência.
O desafio será manter unificada a base bolsonarista, que inclui desde liberais econômicos até conservadores religiosos, passando por militares e empresários. Flávio precisará mostrar que consegue falar para todos esses grupos sem perder coerência ou autenticidade.
A decisão de Jair Bolsonaro consolida uma transição política que já vinha sendo desenhada há meses. A carta redigida antes da cirurgia transforma especulação em fato consumado. Flávio Bolsonaro é oficialmente o herdeiro político do pai, com todas as vantagens e responsabilidades que isso implica.
O timing dramático – véspera de Natal, véspera de uma cirurgia de risco – confere solenidade ao anúncio. Não foi uma decisão tomada no calor de uma disputa eleitoral, mas uma escolha refletida, formalizada em um momento de vulnerabilidade pessoal do ex-presidente.
Agora resta saber se o bolsonarismo conseguirá se reinventar sob nova liderança. A carta garante a sucessão, mas não garante o sucesso eleitoral. Isso dependerá da capacidade de Flávio de honrar a confiança paterna e conquistar a confiança dos eleitores que um dia escolheram Jair Bolsonaro para comandar o país. O jogo político de 2026 acaba de ganhar seu principal protagonista.
E você, acredita que a estratégia da sucessão familiar pode funcionar na política presidencial brasileira?


