
Jair Bolsonaro cancelou na manhã desta segunda-feira, 23 de dezembro, a entrevista que daria ao portal Metrópoles. O motivo oficial foi “questão de saúde”, conforme bilhete manuscrito entregue à equipe de reportagem que já estava na Polícia Federal. A entrevista estava autorizada por Alexandre de Moraes e seria transmitida na íntegra às 13h.
O cancelamento levanta questões que vão além da saúde do ex-presidente. O timing coincide com o momento em que Alexandre de Moraes enfrenta pressão crescente por suas decisões controversas. Seria apenas coincidência ou uma jogada calculada para não interferir no ciclo de notícias favorável aos críticos do ministro do STF?
O episódio expõe a complexa relação entre mídia, justiça e política no Brasil atual. Quando um ex-presidente precisa de autorização judicial para dar entrevista, algo está profundamente errado com o estado de direito no país.
O bilhete que frustrou a imprensa
A equipe do Metrópoles chegou cedo à sede da Polícia Federal em Brasília, equipada para gravar a entrevista prometida. O encontro estava marcado para às 10h e duraria uma hora. O portal havia se comprometido a publicar o conteúdo sem cortes, uma garantia rara no jornalismo atual.
Por volta das 10h, o irmão de Michelle Bolsonaro entregou um bilhete manuscrito aos jornalistas. “Informo que não concederei entrevista nessa data por questão de saúde”, escreveu Bolsonaro, seguido de sua assinatura. O documento, embora com grafia ligeiramente diferente do usual, foi confirmado como autêntico.
A frustração da equipe jornalística era evidente. Equipamentos já instalados, cronograma definido, expectativa criada. Tudo cancelado por um bilhete de poucas linhas. A cena ilustra o estado atual da democracia brasileira: um ex-presidente preso precisa de autorização para falar, e quando pode, desiste no último minuto.
O cancelamento também revela a precariedade da situação. Bolsonaro, que já foi o homem mais poderoso do país, agora depende de intermediários para comunicar decisões básicas. É um retrato cruel da perseguição política em curso.
Flávio Bolsonaro explica o cancelamento
Pouco após o cancelamento, Flávio Bolsonaro gravou um áudio explicando a situação. “Como todo mundo sabe, ele está na eminência de se internar para fazer uma cirurgia”, disse o senador. “Tem dia que ele acorda bem, tem dia que ele acorda pior. Hoje pode ter sido um dia que ele acordou mais indisposto.”
O filho do ex-presidente pediu orações pela saúde do pai e pela família. “Eu sei que muita gente está com saudade dele, de ver meu pai de novo, de ouvir sua voz”, afirmou Flávio. A fala revela a dimensão humana por trás do drama político: um homem de 69 anos enfrentando problemas de saúde longe da família.
Flávio também mencionou que por onde anda, as pessoas perguntam sobre a saúde de Bolsonaro. Isso demonstra que, mesmo preso e afastado da mídia, o ex-presidente mantém conexão emocional com parte significativa da população. É um capital político que não se dissolve com prisões ou perseguições.
A cirurgia mencionada foi autorizada por Alexandre de Moraes após perícia da Polícia Federal. Ironia da situação: o mesmo ministro que mantém Bolsonaro preso é quem autoriza seu tratamento médico. Concentração de poder que seria cômica se não fosse trágica.
Questão de saúde ou estratégia política?
Embora o motivo oficial seja saúde, outros fatores podem ter influenciado a decisão. O momento político atual é peculiar: Alexandre de Moraes enfrenta pressão crescente por suas decisões autoritárias. Vários setores da sociedade questionam seus métodos e a extensão de seus poderes.
Uma entrevista de Bolsonaro neste momento poderia desviar a atenção do foco atual: a crise de credibilidade do STF. Deixar que a pressão sobre Moraes continue sem distrações pode ser mais estratégico. É possível que o ex-presidente tenha calculado que seria melhor não “poluir” o ambiente de notícias.
Essa hipótese faz sentido do ponto de vista tático. Quando seus adversários estão em crise, por que intervir? A máxima de Napoleão se aplica aqui: “Nunca interrompa seu inimigo quando ele está cometendo um erro”. Se Moraes está sendo questionado, melhor deixar a situação se desenrolar naturalmente.
Por outro lado, Bolsonaro perdeu uma oportunidade valiosa de se comunicar diretamente com o público. Não se sabe quantas outras chances como esta surgirão. O cálculo entre timing político e comunicação direta é sempre complexo, especialmente em situações adversas como a atual.
A cirurgia e os próximos passos
Bolsonaro deve se submeter a uma cirurgia entre quarta e quinta-feira desta semana. O procedimento foi considerado necessário após perícia da Polícia Federal, que avaliou seu estado de saúde. Alexandre de Moraes autorizou a cirurgia após solicitar nova perícia médica.
A necessidade de autorização judicial para tratamento médico é outro indicativo da situação kafkiana. Um cidadão, mesmo preso, deveria ter direito básico à saúde sem burocracias excessivas. Que o ex-presidente precise de aval do STF para se operar mostra o nível de controle exercido sobre ele.
Após a recuperação, é possível que novas oportunidades de entrevista surjam. O interesse da imprensa é evidente, e o público demonstra curiosidade sobre as posições de Bolsonaro. A comunicação direta sempre foi um dos pontos fortes do ex-presidente, e ele sabe disso.
O período pós-cirúrgico também pode coincidir com mudanças no cenário político. Se a pressão sobre Alexandre de Moraes continuar crescendo, pode haver alterações na condução dos casos envolvendo Bolsonaro. O timing de uma futura entrevista pode ser muito diferente do atual.
O ciclo da mídia e o jogo político
O cancelamento da entrevista ilustra a complexidade do atual ciclo de notícias. Vivemos um momento em que Alexandre de Moraes está sob forte pressão. Diversos setores questionam suas decisões e métodos. Até mesmo aliados do governo Lula parecem incomodados com alguns excessos do ministro.
Neste contexto, uma entrevista de Bolsonaro poderia ter dois efeitos opostos. Por um lado, daria voz ao principal crítico de Moraes, amplificando as críticas ao ministro. Por outro, poderia desviar o foco da crise atual do STF para questões específicas envolvendo o ex-presidente.
A estratégia de “preservar o ciclo da mídia” pode ser mais sofisticada do que parece. Deixar que os questionamentos a Moraes ganhem força sem interferências externas pode ser mais eficaz. É como deixar que o adversário se desgaste sozinho antes de entrar na briga.
Essa abordagem também demonstra maturidade política. Em situações adversas, nem sempre a exposição máxima é a melhor estratégia. Às vezes, o silêncio calculado pode ser mais poderoso que mil palavras. O timing na política é tudo.
A democracia sob tensão
O episódio da entrevista cancelada é sintoma de questões maiores. Quando um ex-presidente precisa de autorização judicial para dar entrevista, algo está errado com o estado democrático de direito. A normalização dessa situação é ainda mais preocupante que a própria situação.
A imprensa, por sua vez, se vê refém de decisões judiciais para exercer seu papel. O jornalismo livre pressupõe acesso às fontes, especialmente figuras públicas relevantes. Quando esse acesso depende de autorização de terceiros, a liberdade de imprensa fica comprometida.
O público também sai perdendo. Independentemente da opinião sobre Bolsonaro, os cidadãos têm direito de ouvir diferentes versões dos fatos. A democracia se fortalece com o debate, não com o silenciamento. Quando vozes são caladas, mesmo que controversas, toda a sociedade perde.
É fundamental questionar se os métodos utilizados para combater supostas ameaças à democracia não estão, eles próprios, minando as bases democráticas. A cura não pode ser pior que a doença. A democracia se defende com mais democracia, não com menos.
O cancelamento da entrevista de Bolsonaro, seja por motivos de saúde ou estratégia política, expõe as fraturas do sistema democrático brasileiro. A concentração de poder em poucas mãos, a judicialização da política e a limitação do debate público são sinais preocupantes. A sociedade precisa estar atenta a esses sinais antes que seja tarde demais.
Enquanto isso, resta torcer pela recuperação do ex-presidente e pela normalização da vida política brasileira. A democracia brasileira precisa de ar fresco, debate livre e respeito às instituições. Só assim poderemos superar este momento de turbulência e construir um futuro mais livre e próspero para todos.
Até quando vamos aceitar que a política brasileira seja conduzida por bilhetes manuscritos e autorizações judiciais para atos básicos da vida democrática?


