
Uma nova pesquisa do Poder Data revela um cenário preocupante para o Supremo Tribunal Federal. Após as condenações do 8 de janeiro, 44% dos brasileiros consideram o trabalho da corte ruim ou péssimo. O dado se aproxima do pior momento da instituição, registrado em setembro de 2022, quando 46% da população desaprovava o tribunal.
A diferença crucial está nos números de aprovação. Em 2022, mesmo com alta rejeição, 24% dos brasileiros ainda consideravam o STF bom ou ótimo. Hoje, apenas 14% mantêm essa avaliação positiva. O tribunal perdeu apoiadores em ritmo acelerado.
Esses números não são apenas estatísticas. Representam uma crise de legitimidade que pode ter consequências políticas concretas. Quando uma instituição se torna majoritariamente rejeitada, abre-se espaço para mudanças que seus integrantes talvez não esperem.
O STF transformou questões jurídicas em embates políticos. Agora colhe os frutos dessa escolha questionável.
Como o tribunal saiu dos trilhos constitucionais
No início de 2021, os números do STF eram diferentes. A pesquisa mostrava 31% de desaprovação contra 18% de aprovação, com a maioria considerando o trabalho regular. Essa distribuição era saudável para um tribunal.
Tribunais não precisam ser populares. Sua função é aplicar a lei, não agradar multidões. A avaliação “regular” demonstra que a população entendia o papel técnico da instituição, sem criar expectativas exageradas ou rejeições extremas.
A mudança começou quando o STF decidiu atuar como ator político. Durante o governo Bolsonaro, a corte passou a tomar decisões claramente baseadas em preferências ideológicas, não em interpretações jurídicas sólidas.
O caso das armas ilustra bem essa deriva. A Constituição não proíbe o porte de armas. Durante décadas, brasileiros tiveram acesso legal a armamentos. Mas quando Bolsonaro tentou facilitar esse acesso, o STF inventou uma interpretação sobre “segurança pública” que não existe no texto constitucional.
Essa postura repetiu-se em diversos temas. O tribunal começou a funcionar como um poder moderador não previsto na Constituição, decidindo quais políticas públicas o país deveria adotar.
Quando juízes fazem política, perdem a legitimidade que a imparcialidade lhes confere.
O erro histórico da união homoafetiva
Um exemplo anterior já mostrava essa tendência problemática. A decisão sobre união de pessoas do mesmo sexo, embora bem-intencionada, foi tecnicamente equivocada. A Constituição define claramente casamento como união entre homem e mulher.
O STF argumentou que, como homens e mulheres têm direitos iguais, então pessoas do mesmo sexo também podem se casar. O raciocínio contém erros lógicos e hermenêuticos evidentes.
Dizer que homens e mulheres têm direitos iguais não significa que são idênticos. São diferentes, mas com direitos equivalentes. Além disso, a boa interpretação constitucional não permite que palavras sejam ignoradas.
Se o constituinte escreveu “homem e mulher”, tinha uma razão. Poderia ter escrito “duas pessoas” ou simplesmente “pessoas”. A escolha das palavras tem significado jurídico.
O resultado desejado – igualdade de direitos para casais homoafetivos – era justo. Mas quem deveria garanti-lo era o Congresso Nacional, através de lei ou emenda constitucional. Não o Judiciário, inventando interpretações convenientes.
Essa decisão criou um precedente perigoso: o STF pode reescrever a Constituição quando achar necessário.
O aumento do medo e da autocensura
A pesquisa revela outro dado alarmante. O percentual de pessoas que “não sabem” ou “não opinam” sobre o STF saltou drasticamente após 8 de janeiro. Antes, ficava entre 2% e 8%. Depois, passou para 11% a 16%.
Esse aumento não reflete ignorância sobre o tribunal. Demonstra medo de se posicionar publicamente. Brasileiros começaram a temer represálias por criticar o STF, mesmo em pesquisas supostamente anônimas.
O fenômeno lembra regimes autoritários, onde cidadãos evitam opinar sobre temas sensíveis. Na Rússia, Putin criminaliza críticas à guerra na Ucrânia. Resultado: poucas pessoas falam contra publicamente, mas o sentimento de oposição permanece.
No Brasil, criticar decisões do STF virou “ataque às instituições” ou “ameaça à democracia”. Essa retórica intimidadora funciona para silenciar vozes, mas não muda opiniões. Apenas as empurra para baixo do tapete.
Alexandre de Moraes e outros ministros confundem críticas legítimas com tentativas de golpe. Transformaram o debate público saudável em crime contra a segurança nacional.
Democracias morrem quando cidadãos param de falar o que pensam.
O fracasso da estratégia de intimidação
O STF apostou numa estratégia simples: intimidar opositores até que mudassem de opinião. Prendeu pessoas por posts em redes sociais, censurou conteúdos críticos e tratou manifestações como insurreições.
Essa abordagem falhou completamente. Os números mostram que a reprovação voltou aos patamares de 2022, mas com menos apoiadores. O tribunal conseguiu o pior dos mundos: manteve os críticos e perdeu os defensores.
O caso das supostas tentativas de golpe exemplifica essa falência. Bolsonaro estava em Orlando quando supostamente planejava derrubar o governo brasileiro. Como alguém dá golpe do exterior, oito dias após deixar o mandato?
A narrativa não convence nem os simpatizantes da esquerda. Todo mundo percebe que o STF pegou ações que não gostou e rotulou como “golpe” para justificar perseguições.
Mesmo em ditaduras, controle pela força tem prazo de validade. A vontade popular sempre encontra formas de se expressar, mesmo que demorem décadas para aparecer.
O STF brinca com fogo ao tentar controlar opiniões através de ameaças e prisões.
A ameaça eleitoral que se aproxima
Os ministros do STF acreditam estar protegidos por não serem eleitos. Pensam que podem tomar qualquer decisão sem consequências políticas. Estão redondamente enganados.
A pesquisa fornece munição poderosa para candidatos que prometam fazer impeachment de ministros. Em 2026, muitos políticos se elegerão com essa pauta, surfando na onda de insatisfação popular.
A revista Veja noticiou a reação do STF a essa possibilidade: “Eles que engambelem os eleitores”. Os ministros acham que podem impedir o Congresso de cumprir suas prerrogativas constitucionais.
Essa arrogância demonstra total desconexão com a realidade. O impeachment de ministros é prerrogativa constitucional do Senado. Não pode ser vetado pelo próprio STF, sob pena de criar um poder absolutamente irresponsável.
Quando 44% da população rejeita uma instituição, surge demanda política para mudanças. Candidatos inteligentes vão capitalizar esse sentimento, prometendo reformas ou substituições.
Os ministros criaram suas próprias guilhotinas políticas ao entrarem no jogo partidário.
As consequências da politização judicial
O STF abandonou sua função original de guardião da Constituição. Virou um super-poder que decide políticas públicas, censura conteúdos e determina quais opiniões são aceitáveis.
Essa transformação corrói a separação de poderes, pilar fundamental da democracia. Quando juízes fazem leis, legisladores perdem função. Quando censuram opiniões, executam políticas públicas sem prestação de contas.
O tribunal assumiu responsabilidades que não consegue cumprir adequadamente. Fazer justiça já é tarefa complexa, que demanda conhecimento técnico e imparcialidade. Tentar resolver todos os problemas da sociedade através de decisões judiciais é receita para o fracasso.
Além disso, decisões judiciais não têm a legitimidade democrática das leis. Quando parlamentos aprovam normas, representam a vontade popular expressa nas urnas. Quando tribunais inventam regras, impõem preferências de grupos não-eleitos.
Essa distorção gera revolta natural. Cidadãos perguntam: “Para que serve meu voto se onze pessoas decidem tudo?”. A pergunta é pertinente e perigosa para a estabilidade institucional.
O STF precisa voltar ao seu papel original antes que seja tarde demais.
O exemplo russo e os limites do autoritarismo
A estratégia do STF lembra tentativas autoritárias de controlar a opinião pública. Na Rússia, Putin pune críticas à guerra com até 15 anos de prisão. O resultado é silêncio público, mas não mudança de opinião.
Russos continuam achando a guerra problemática, mas evitam falar sobre isso. O sentimento de oposição permanece, apenas migra para conversas privadas e manifestações indiretas.
No Brasil, fenômeno similar acontece. O aumento de “não sei/não opino” nas pesquisas mostra que brasileiros têm medo de criticar o STF publicamente. Mas a desaprovação continua crescendo.
Reprimir opiniões é como tentar segurar vapor com as mãos. A pressão aumenta até que explode de forma incontrolável. Ditaduras militares aprenderam essa lição da forma mais dura.
Mesmo regimes totalitários acabam cedendo à pressão popular quando ela atinge níveis insustentáveis. A União Soviética parecia indestrutível, mas desmoronou quando perdeu completamente a legitimidade.
O STF caminha para o mesmo destino se insistir em governar pela força.
A História mostra que instituições só se mantêm quando têm respaldo popular mínimo. Quando 44% dos brasileiros já reprovam o STF, e apenas 14% ainda o aprovam, os sinais são inequívocos. O tribunal perdeu legitimidade social e corre risco de sofrer reformas drásticas nas próximas eleições.
A solução seria simples: voltar à função original de interpretar leis, não de fazê-las. Mas a arrogância dos ministros parece impedir essa correção de rota necessária.
Resta saber se aprenderão antes que seja tarde demais, ou se continuarão escavando o próprio túmulo político até que alguém os enterre definitivamente.


