
O governo americano retirou as sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e sua família. A decisão reverte medidas que incluíam bloqueio de ativos, restrições financeiras e proibição de entrada nos Estados Unidos. Autoridades americanas justificaram a mudança com “reaproximação diplomática” e “novo ambiente político no Brasil”. Mas as explicações foram vagas demais para convencer.
Para muitos brasileiros, essa notícia matou qualquer esperança restante no país. A Magnitsky era vista como a carta final contra o autoritarismo do judiciário brasileiro. Uma ferramenta externa capaz de impor limites a um poder que internamente não reconhece freios. Quando essa carta saiu da mesa, sobrou apenas desesperança.
Mas a decepção revela um erro mais profundo. A direita brasileira continua cometendo o mesmo equívoco desde a época de Bolsonaro. Deposita expectativas excessivas em figuras providenciais, nacionais ou estrangeiras. Ontem foi Bolsonaro, hoje é Trump, amanhã será outro qualquer.
O padrão se repete com precisão matemática. Projeta-se no político a função de Salvador. Ignora-se a estrutura real de poder. Depois vem a frustração inevitável. É o ciclo eterno da direita brasileira: esperança, decepção, novo messias, nova decepção.
Trump sacrificou princípios por interesses maiores
Ninguém sabe ao certo o que levou Trump a reverter as sanções. Podem ter pesado acordos comerciais, rearranjos geopolíticos ou pressões internas. Talvez Lula simplesmente tenha passado a perna no americano. O fato é que princípios abstratos são os primeiros a serem sacrificados quando interesses maiores entram em jogo.
Isso não é particularidade de Trump. É característica estrutural da política estatal. Estados agem por interesse próprio, não por altruísmo. Acreditar que outro país usará sua soberania para resolver nossos problemas internos é ilusão perigosa. E profundamente incompatível com qualquer visão libertária séria.
As autoridades americanas mencionaram projetos como a PL da Anistia como fatores que pesaram na decisão. Falaram em “normalização das relações bilaterais”. Mas toda essa retórica diplomática não esconde o óbvio: quando convém, princípios são abandonados sem cerimônia.
A sanção foi retirada com a mesma facilidade com que foi aplicada. Não exigiu qualquer mudança substancial de comportamento por parte de Moraes. As decisões autoritárias continuaram. A concentração de poder seguiu intacta. A lógica do sistema permaneceu inalterada.
A lição ignorada de Olavo sobre poder real
A direita brasileira parece não ter assimilado uma lição básica de Olavo de Carvalho. A distinção entre infraestrutura e superestrutura. Conceito oriundo do marxismo, ironicamente ignorado por seus adversários. Olavo sempre insistiu que cargos políticos, mandatos e influência institucional pertencem à superestrutura.
Superestrutura molda discursos, leis e narrativas. Mas não constitui poder real por si só. Poder real é algo mais simples e mais difícil de conquistar. É o número de pessoas que te obedecem voluntariamente. É a capacidade de orientar comportamentos, formar consciências, criar lealdades sem coersão direta.
E é exatamente aí que a esquerda vence de lavada. Enquanto a direita comemora cadeiras no Congresso e vitórias eleitorais episódicas, a esquerda construiu uma vasta infraestrutura social. Sindicatos, movimentos estudantis, associações de classe, ONGs, lideranças comunitárias. Professores, intelectuais orgânicos, militantes espalhados por toda a máquina social.
A direita concentrou esforços quase exclusivamente na superestrutura. Apostou que conquistando cargos, tudo se alinharia automaticamente. Apostou que eleger um presidente resolveria problemas culturais, sociais e estruturais. Apostou que decisões vindas de cima reordenariam a sociedade. E mais uma vez perdeu.
O equívoco da aposta na Magnitsky
O episódio da Lei Magnitsky demonstra esse equívoco com perfeição. Quando as sanções foram anunciadas, houve quem acreditasse num divisor de águas. Um golpe decisivo contra a autoridade de Alexandre de Moraes. Por um momento houve impacto, constrangimento internacional, incômodo.
Mas nada disso foi suficiente para interromper a cruzada autoritária em curso. As decisões continuaram. A lógica de concentração de poder seguiu intacta. A sanção causou dano momentâneo, mas não alterou a estrutura. O sistema absorveu o golpe e continuou funcionando normalmente.
A efetividade da Magnitsky sempre foi limitada. Especialmente quando usada como substituto para ações internas de base. Instrumentos legais internacionais têm valor, mas são frágeis, reversíveis e subordinados a interesses alheios. Dependem da boa vontade de burocratas estrangeiros.
Se o problema central é o excesso de poder do Estado brasileiro, então a solução não pode vir de outro Estado. Isso é contradição em termos. A saída precisa ser construída de baixo para cima, não de fora para dentro. Liberdade não se terceiriza, não se delega, não se importa de Washington ou qualquer capital.
Bitcoin: a verdadeira sanção contra ditadores
Ao invés de esperar heróis internacionais, a direita deveria agir de forma direta e pragmática. Ferramentas libertárias existem e não são poucas. O Bitcoin representa desafio real ao poder estatal porque ataca sua base financeira. Guardar economias em Bitcoin não é apenas investimento. É ato político no sentido mais profundo.
É retirar do Estado a capacidade de corroer sua poupança via inflação. De rastrear cada transação. De confiscar recursos com uma canetada. Um cidadão que protege patrimônio fora do sistema financeiro estatal causa mais dano a regimes autoritários que qualquer sanção diplomática temporária.
O mesmo vale para VPNs, ferramentas de privacidade, redes descentralizadas e meios alternativos de organização social. Tudo isso reduz o alcance do controle estatal. Dificulta a censura e fortalece a autonomia individual. São ações silenciosas, invisíveis, mas cumulativas e extremamente eficazes.
Diferentemente da Lei Magnitsky, essas ferramentas estão ao alcance de qualquer indivíduo. Não dependem da boa vontade de burocratas estrangeiros. Dependem apenas da disposição de assumir responsabilidade sobre a própria liberdade. E ninguém pode revogar essa decisão individual.
A estratégia que realmente funciona
Isso não significa abandonar a luta na superestrutura. Ela continua importante. Canais independentes fazem parte do esforço de formação de consciência, disputa narrativa e esclarecimento público. Mas essa luta só produz resultados duradouros quando conectada a estratégia mais ampla de ocupação de espaços reais.
Esses espaços não se limitam a cargos eletivos. Magistratura, lideranças estudantis, professores, formadores de opinião locais. Produção consistente de literatura de direita. Construção de comunidades intelectuais e culturais que sobrevivem independentemente de ciclos eleitorais. É trabalho de formiguinha, mas é o único que gera resultados duradouros.
Quando se combina essa atuação de base com retirada sistemática de recursos do Estado, o impacto é profundo. Via Bitcoin e outras ferramentas libertárias, o Estado sente no bolso. Cofres se esvaziam, capacidade de financiar estruturas coercitivas diminui. Sem dinheiro, toda engrenagem autoritária começa a ranger.
É a sanção que realmente funciona. Não depende de decretos de Washington. Não pode ser revogada por acordos diplomáticos. É construída por milhões de decisões individuais de pessoas que escolhem reduzir sua dependência do sistema estatal. E essa escolha está ao alcance de qualquer brasileiro.
Por que não é o fim do mundo
A retirada das sanções, embora desoladora, não deveria ser encarada como fim do mundo. A história está repleta de períodos mais sombrios enfrentados sem Bitcoin, criptografia moderna ou redes descentralizadas de comunicação. Se foi possível resistir em contextos mais hostis, não há razão para sucumbir ao desânimo agora.
A principal lição desse episódio é clara: liberdade não se terceiriza. Não se delega, não se importa de qualquer capital estrangeira. É construída dia após dia por indivíduos dispostos a reduzir dependência do Estado. Por pessoas que fortalecem laços voluntários de cooperação fora do sistema oficial.
O erro da direita foi apostar todas as fichas numa carta que não controlava. Numa decisão que dependia de interesses alheios aos brasileiros. Foi mais uma vez confundir superestrutura com poder real. Mais uma vez esperar que a solução viesse de cima ou de fora.
Mas existe alternativa concreta. Sancionar pessoalmente todos os ditadores do governo brasileiro. Não com decretos vazios, mas retirando dinheiro do sistema estatal. Usando real o mínimo possível. Protegendo patrimônio. Fortalecendo redes paralelas. Reduzindo na prática o poder de quem vive de coersão.
O desafio está lançado
O convite está feito. Façam aquilo que Trump foi incapaz de fazer de forma consistente. Sancionem vocês mesmos os autoritários brasileiros. Mas não com palavras bonitas ou declarações diplomáticas. Com ações concretas que retirem recursos do sistema estatal.
Essa é a sanção que ninguém pode revogar. Que não depende de acordos internacionais ou mudanças de governo em outros países. Depende apenas da coragem individual de assumir responsabilidade pela própria liberdade. De parar de esperar salvadores e começar a agir.
O Estado brasileiro se fortalece com cada real que circula em seu sistema. Com cada transação rastreada. Com cada patrimônio sob seu controle. Inverter essa lógica é mais revolucionário que qualquer sanção internacional. É mais efetivo que qualquer vitória eleitoral isolada.
A pergunta que fica é: quantos brasileiros estão dispostos a sair da zona de conforto da esperança passiva? Quantos vão trocar a ilusão do salvador externo pela responsabilidade da ação individual? A resposta definirá o futuro da liberdade no país.


