
Depois de 26 anos de negociações, o acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul volta à mesa em dezembro de 2025. O que está sendo vendido como “vitória histórica” esconde números alarmantes. Segundo estudos do Ipea, órgão do próprio governo, o ganho esperado para o Brasil é de míseros 0,2% a 0,5% do PIB no longo prazo. Em troca, o país acelera sua desindustrialização e reforça o papel de exportador de commodities.
O acordo será assinado no dia 20 de dezembro, durante a Cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu. Mas os dados oficiais mostram uma realidade incômoda: o Brasil está trocando indústria, emprego qualificado e autonomia tecnológica por décimos percentuais de crescimento. Enquanto isso, a Europa entra protegida por salvaguardas que permitem travar importações quando seus produtores se sentirem ameaçados.
O próprio Itamaraty classificou essas salvaguardas como “preocupantes”. Na prática, significa que o Brasil abre seu mercado sem travas, enquanto a Europa mantém o botão de emergência. Quando as exportações brasileiras começarem a incomodar, as regras mudam no meio do jogo. Não é incompetência. É projeto.
Os números que revelam o tamanho do problema
O mercado envolvido no acordo movimenta mais de 780 bilhões de euros anuais. Para o Brasil, a União Europeia já é o segundo maior cliente do agronegócio, comprando cerca de 23 bilhões de dólares em produtos brasileiros. A China lidera com 49 bilhões, seguida pelos Estados Unidos com 12 bilhões.
Mas os ganhos prometidos são desproporcionais aos riscos assumidos. O crescimento de 0,2% a 0,5% do PIB é praticamente irrelevante para uma economia do tamanho da brasileira. Em contrapartida, o país se compromete a facilitar a entrada de produtos industrializados europeus como máquinas, autopeças, produtos químicos e farmacêuticos.
O Brasil sai vendendo soja, carne e grãos. Quando precisa de tecnologia, remédios ou equipamentos industriais, importa da Europa. Produto de baixo valor agregado sai, produto caro entra. É o modelo clássico de dependência colonial, agora com roupagem de “livre-comércio”.
O timing do acordo também preocupa. Com o “tarifaço” americano reduzindo exportações para os Estados Unidos, o Brasil demonstra desespero na negociação. E quem negocia desesperado sempre fecha o pior negócio.
Salvaguardas europeias: proteção assimétrica
A União Europeia não entra neste acordo para competir em igualdade de condições. O Parlamento Europeu avançou na criação de salvaguardas que podem suspender benefícios ao Mercosul sempre que os produtores europeus se sentirem prejudicados. Na prática, é uma trava unilateral.
Essas salvaguardas permitem reintroduzir tarifas, limitar volumes importados e endurecer exigências sanitárias e ambientais. Funciona como um botão de emergência que a Europa pode acionar quando quiser. O Brasil, por outro lado, não tem a mesma proteção.
A competitividade brasileira no agronegócio é evidente. Os custos de produção aqui são menores que na Europa, onde agricultores enfrentam carga tributária pesada e regulações ambientais rigorosas. Os produtores europeus sabem que não conseguem competir e por isso pressionaram seus governos por essas salvaguardas.
Quando o Brasil começar a ganhar mercado com carnes, grãos e alimentos, os produtores europeus vão pressionar seus governos. As salvaguardas serão acionadas e o Brasil ficará preso a um acordo onde só uma parte pode mudar as regras. É livre-comércio até o Brasil começar a incomodar.
A tragédia da desindustrialização brasileira
Os dados do Ipea mostram uma trajetória preocupante. Na década de 1980, a indústria brasileira representava quase 40% do PIB. Hoje, esse número despencou para cerca de 11%. O processo se acelerou nos anos 1990, quando o país reduziu barreiras de importação sem contrapartidas adequadas.
O acordo UE-Mercosul pode aprofundar essa desindustrialização. Segundo o próprio Ipea, haverá “conflito entre as novas políticas para estimular a industrialização do país e a entrada em vigência do acordo”. Ou seja: se o Brasil quiser investir em sua indústria, o acordo impedirá.
Os números recentes confirmam a tendência. Em setembro de 2025, a indústria geral caiu 14,8%, a de transformação despencou 16,4% e a extrativa recuou 13,2%. Mês após mês, a indústria brasileira encolhe enquanto o governo celebra acordos que aceleram esse processo.
Não existe país forte geopoliticamente com indústria fraca. Quando uma nação abdica de produzir, abdica de inovar, de gerar empregos qualificados e de construir futuro. O Brasil está caminhando na direção oposta ao desenvolvimento industrial.
O impacto real no emprego e na renda
A desindustrialização não é apenas estatística fria. Significa menos fábricas funcionando, menos engenharia, menos tecnologia e menos empregos qualificados. A indústria sustenta os maiores salários médios do país e é onde as pessoas constroem carreiras sólidas.
Quando a indústria encolhe, o país pode até crescer, mas cresce mal. Os empregos que surgem são de baixa qualificação, porta de entrada, com alta informalidade. É exatamente o que acontece no Brasil: crescimento pífio acompanhado de deterioração da qualidade do trabalho.
As regiões mais industrializadas do país – Sul, Sudeste e polos do Nordeste – serão as primeiras a sentir o impacto. O processo é gradual: primeiro cai o investimento, depois o emprego, em seguida os salários e por fim a arrecadação tributária. É um ciclo vicioso de empobrecimento industrial.
O Ipea alerta que esse tipo de acordo gera “impacto negativo de longo prazo no mercado de trabalho”. O ganho prometido no PIB é insignificante comparado ao custo permanente para a indústria nacional. É trocar o futuro por migalhas no presente.
Europa protegida, Brasil vulnerável
O desenho do acordo revela sua verdadeira natureza. A Europa aceita comprar commodities brasileiras, mas mantém salvaguardas para proteger seus produtores. O Brasil, em contrapartida, abre seu mercado industrial sem nenhuma trava ou garantia.
Historicamente, acordos de livre-comércio funcionam quando são equilibrados. Cada país abre parte de seu mercado, aceita competir e os ganhos vêm da especialização e eficiência. Mas quando o acordo é desequilibrado, um lado vira fornecedor e o outro vira dono do mercado.
É exatamente isso que está acontecendo. O Brasil se especializa em produtos primários enquanto a Europa mantém o controle sobre bens industrializados de alto valor agregado. Não é livre-comércio. É comércio condicionado com travas assimétricas.
A União Europeia entende que não pode competir com a eficiência brasileira no agronegócio. Por isso criou mecanismos para limitar essa competição quando necessário. É uma admissão de que o acordo só funciona se eles puderem controlar os resultados.
As evidências contra o acordo
O próprio governo brasileiro possui estudos que desaconselham o acordo. O Ipea conclui que “as evidências favoráveis à adoção do acordo são modestas diante da magnitude dos riscos envolvidos”. Recomenda cautela e ampliação dos estudos de impacto.
O instituto governamental alerta para conflitos entre políticas de industrialização e as obrigações do acordo. Na prática, assinar significa abrir mão de instrumentos de política industrial. O país ficará impedido de proteger setores estratégicos ou incentivar a produção local.
Mesmo com esses alertas oficiais, o governo insiste em apresentar o acordo como vitória. Não há estudos públicos detalhados sobre os impactos. A única coisa clara é que o Ipea considera o modelo prejudicial para a indústria brasileira.
É uma repetição de erros históricos. Nos anos 1990, o Brasil abriu sua economia sem contrapartidas adequadas e assistiu à desindustrialização acelerada. Agora, repete a mesma estratégia esperando resultados diferentes.
O que está realmente em jogo
Além dos números econômicos, o acordo representa uma escolha de modelo de país. O Brasil pode optar por ser uma potência industrial diversificada ou se conformar com o papel de fornecedor de matérias-primas. É uma decisão que terá consequências por décadas.
A dependência tecnológica é outro aspecto crítico. Países que não produzem tecnologia ficam vulneráveis a chantagens econômicas e políticas. A Europa entende isso e mantém controle sobre setores estratégicos. O Brasil, aparentemente, não.
O timing geopolítico também é desfavorável. Num mundo cada vez mais protecionista, especialmente após as políticas americanas, o Brasil escolhe a vulnerabilidade. Enquanto outras nações protegem suas indústrias, o país se desprotege voluntariamente.
O agronegócio brasileiro é competitivo e não precisa de acordos para vencer no mercado global. A indústria, por outro lado, precisa de tempo, investimento e proteção temporária para se desenvolver. O acordo sacrifica a segunda para beneficiar marginalmente o primeiro.
O Brasil está prestes a assinar um acordo que pode definir seu futuro como nação. Os números oficiais mostram ganhos pífios em troca de riscos enormes. O próprio governo possui estudos desaconselhando a decisão, mas a narrativa política prevalece sobre a evidência técnica.
A questão central permanece: vale trocar indústria, emprego qualificado e autonomia tecnológica por décimos de crescimento econômico? A resposta desta pergunta definirá se o Brasil será uma potência industrial ou uma eterna colônia moderna.
E você, o que pensa sobre esse acordo? Vale sacrificar o futuro industrial do país por ganhos tão pequenos no presente?


