
O cantor Zezé di Camargo pediu ao SBT que seu especial de Natal não vá ao ar após a presença de Lula na inauguração do SBT News na sexta-feira. A reação aconteceu depois da pressão de fãs que criticaram duramente a emissora por receber o presidente, além do ministro Alexandre de Moraes e outros políticos no evento de lançamento do novo canal.
O especial estava programado para ir ao ar na próxima quarta-feira, dia 17 de dezembro. Segundo Zezé, a decisão veio após uma avalanche de reclamações do seu público, que considerou que o SBT “se vendeu” para o governo atual.
Mas será que essa reação toda não está passando dos limites? A polêmica revela algo mais profundo sobre as expectativas políticas em relação às empresas de comunicação brasileiras.
O vídeo que expôs a divisão familiar
No vídeo divulgado pelo cantor, Zezé di Camargo foi direto ao ponto. “Todo mundo sabe que eu tenho um especial no SBT, mas eu já vi acontecendo nos últimos dias da inauguração do SBT. Juro por Deus que não faz parte do meu pensamento, não tenho nada contra ninguém”, disse o sertanejo.
Mas foi na sequência que ele revelou o verdadeiro motivo da revolta. “Diante da situação que eu vi no SBT, as pessoas mudando totalmente a maneira de pensar, principalmente das filhas do Silvio Santos. Uma coisa que sempre disse na minha vida, filho que não honra pai e mãe não existe.”
Para Zezé, as herdeiras do comunicador traíram a memória do pai ao recepcionar Lula. “Se você puder fazer um favor para mim, tire o meu especial do ar. A partir do momento que as pessoas pensam diferente do que o pai pensava de grande parte do Brasil, o que eu penso para mim não faz sentido.”
O cantor deixou claro que não tem poder contratual para impedir a exibição, apenas fez um pedido à emissora. Ele deve ter contratos firmados e pagamentos acertados, o que complica juridicamente qualquer tentativa de cancelamento unilateral.
A estratégia empresarial por trás do evento
O evento de inauguração do SBT News reuniu figuras de diferentes espectros políticos. Além de Lula e Alexandre de Moraes, esteve presente o governador Tarcísio de Freitas, que também foi alvo de críticas por aplaudir o ministro do STF durante o evento.
Do ponto de vista empresarial, a estratégia faz sentido. Fábio Faria, à frente do projeto, quer posicionar o SBT News como um canal “isento”, capaz de atrair anunciantes de todos os segmentos. Convidar políticos de direita e esquerda sinaliza para o mercado que a emissora não terá linha editorial partidária.
“Quem são os clientes do canal? Não é necessariamente o público. Uma parte dos clientes é o pessoal que bota dinheiro no canal, que compra propaganda”, explica a lógica por trás da decisão. Empresas querem anunciar em veículos que não as associem a posições políticas extremas.
Silvio Santos sempre foi, antes de tudo, um empresário. Ele construiu um império de comunicação navegando entre governos de diferentes orientações. Seria ingênuo imaginar que suas filhas abandonariam essa estratégia empresarial por questões ideológicas.
A herança de Silvio Santos em questão
A crítica de Zezé di Camargo toca em um ponto sensível: o que Silvio Santos realmente pensaria sobre receber Lula? O comunicador tinha uma postura mais conservadora, mas era pragmático nos negócios.
Silvio Santos construiu o SBT mantendo relações cordiais com presidentes de diferentes partidos. Ele entendia que televisão é negócio, não militância política. Suas decisões sempre priorizaram a sustentabilidade financeira da emissora.
As filhas do apresentador herdaram não apenas a empresa, mas também a responsabilidade de mantê-la funcionando. Isso inclui tomar decisões empresariais que podem não agradar a todos os segmentos de público.
“Quando o Estado promete ajudar, alguém paga a conta.” No caso das empresas de comunicação, quem paga é quem tenta fazer oposição radical ao governo. As consequências podem ser devastadoras.
O modelo de negócio que está morrendo
O SBT News nasce em um momento peculiar da história da comunicação brasileira. A televisão por assinatura perde audiência para plataformas digitais, especialmente entre os mais jovens.
O projeto inclui uma abordagem multicanal, com presença no YouTube e outras plataformas. Mas o formato tradicional de telejornalismo não se adapta bem ao ambiente digital. No YouTube, o que funciona são personalidades fortes, com opinião própria.
Canais que tentam replicar o modelo televisivo na internet raramente conseguem engajamento significativo. O público digital quer autenticidade, debate, confronto de ideias. Quer jornalistas que assumem posição, não âncoras neutros lendo teleprompter.
O erro do SBT talvez não seja ter convidado Lula para a inauguração. O erro pode ser investir em um modelo de negócio que já mostra sinais de esgotamento. “Ninguém assiste televisão mais”, como diz a realidade dos números de audiência.
Tarcísio de Freitas na linha de fogo
O governador de São Paulo também virou alvo das críticas por aplaudir Alexandre de Moraes durante o evento. Tarcísio bateu palmas “com cara feia, meio desanimado”, mas o gesto foi suficiente para gerar revolta entre bolsonaristas.
A crítica ignora o contexto: todo o auditório estava aplaudindo. Tarcísio estava representando o estado de São Paulo em um evento empresarial. Seria diplomaticamente desastroso criar um incidente público naquele momento.
“Política é negociação, não é negociação só com amigo, é negociação com inimigo também.” Tarcísio entende isso. Ele sabe que governar São Paulo exige diálogo com Brasília, independente de quem esteja no Planalto.
Queimar pontes políticas por questões simbólicas é estratégia amadora. Tarcísio de Freitas é considerado um dos principais nomes da direita para 2026. Destruir sua viabilidade política por causa de uma salva de palmas soa desproporcional.
O risco da radicalização sem propósito
A reação ao evento do SBT News revela algo preocupante: parte da direita brasileira pode estar perdendo o senso de realidade política. Criticar figuras importantes como Tarcísio e Fábio Faria por gestos diplomáticos é contraproducente.
“Não é incompetência. É projeto.” Mas qual projeto? Se o objetivo é fortalecer a oposição para 2026, queimar lideranças viáveis não faz sentido. Se o objetivo é outro, talvez seja hora de explicar qual.
A suspeita de que parte do movimento bolsonarista pode estar sendo infiltrada por elementos interessados em radicalizar o discurso ganha corpo. Empurrar a direita para posições insustentáveis beneficia quem?
Alexandre de Moraes continua ganhando o jogo institucional. Enquanto a oposição se fragmenta em discussões sobre quem aplaudiu ou deixou de aplaudir, o ministro fortalece sua posição no sistema.
A única saída é a via eleitoral
A democracia brasileira, por mais imperfeita que seja, ainda oferece a possibilidade de alternância de poder através das eleições. As eleições de 2026 se aproximam e representam a oportunidade real de mudança.
Fantasiar com soluções não-democráticas é perda de tempo e energia. “Os milico não vão resolver com pé na porta.” A solução está nas urnas, na construção de maioria eleitoral, na conquista do centro político.
Fábio Faria foi ministro de Bolsonaro e ficou ao lado do ex-presidente quando necessário. Tarcísio de Freitas governa o estado mais importante do país com aprovação alta. São ativos políticos valiosos para qualquer projeto de poder.
“Liberdade econômica não é privilégio. É direito.” Mas direitos se conquistam politicamente, não através de birras ou boicotes ineficazes. A direita brasileira precisa escolher entre radicalismo estéril e poder real.
O caso do especial de Zezé di Camargo é sintomático de uma direita que talvez esteja perdendo a capacidade de distinguir entre batalhas importantes e batalhas simbólicas. Nem toda batalha vale a pena ser travada.
E você, acha que Zezé di Camargo teve razão em cancelar seu especial, ou a reação está exagerada? O debate sobre os limites da militância política nas empresas está apenas começando.


