dezembro 15, 2025

Ludwig M

Estadão ataca STF após 7 anos: mídia acordou ou calculismo?

Estadão ataca STF após 7 anos: mídia acordou ou calculismo?

O Estadão publicou um editorial devastador contra o Supremo Tribunal Federal, intitulado “Sete anos de exceção”. O texto critica duramente o inquérito das fake news e o autoritarismo do ministro Alexandre de Moraes. Mas uma pergunta fica no ar: por que só agora? Durante anos, a grande mídia aplaudiu quando o STF perseguia Bolsonaro e seus apoiadores.

A mudança de postura não é coincidência. Com Bolsonaro fora do jogo político, jornais como Estadão, Folha e Globo começam a perceber o monstro que ajudaram a criar. O problema é que esse despertar tardio expõe a hipocrisia de quem fechou os olhos para abusos quando eles serviam aos seus interesses políticos.

O editorial do Estadão marca um ponto de inflexão. Finalmente admitem que o inquérito das fake news se transformou em “instrumento de poder pessoal” de Alexandre de Moraes. Mas essa crítica deveria ter vindo há sete anos, quando tudo começou.

O AI-1 do século XXI: como nasceu a ditadura togada

O inquérito das fake news é o equivalente ao Ato Institucional nº 1 da ditadura militar. Ambos nasceram com o mesmo pretexto: defender a democracia contra supostos inimigos. Em 1964, os militares alegavam combater o comunismo. Em 2019, o STF disse combater ataques às instituições.

A semelhança não para aí. O AI-1 de 6 de abril de 1964 deu poderes ao presidente para cassar mandatos e suspender direitos políticos. O inquérito das fake news deu poderes ilimitados a Alexandre de Moraes para perseguir, censurar e prender sem devido processo legal.

Como observa o Estadão, “não é aceitável que um inquérito permaneça indefinidamente aberto”. Esta era exatamente a crítica feita aos anos de chumbo. Os militares abriam inquéritos aleatórios que nunca chegavam à fase processual. O objetivo era punir com medidas cautelares, não buscar a verdade.

O paralelo histórico é cristalino. Substituíram os tanques pelas togas, mas a lógica autoritária permanece intacta. Quem ousa criticar o sistema é enquadrado como “inimigo da democracia”.

A verdadeira motivação: proteger o esquema de poder

O editorial do Estadão tenta justificar o início do inquérito: “o Supremo se tornara alvo de uma ofensiva coordenada por apoiadores de Bolsonaro”. Mas essa versão esconde a verdadeira motivação. O STF não reagiu a críticas na internet. Reagiu ao risco de ser investigado.

A revista Crusoé havia publicado reportagem sobre o esquema do “amigo do amigo do meu pai”, envolvendo Dias Toffoli na Operação Lava Jato. Se Toffoli fosse investigado, seria questão de tempo até outros ministros entrarem na mira. Foi aí que começou o verdadeiro AI-1 do STF.

As críticas nas redes sociais eram consequência, não causa. O Supremo havia começado a derrubar decretos de Bolsonaro sobre posse de armas, contrariando promessas de campanha. A população que votou nesses decretos naturalmente criticou quem os bloqueava.

Transformar crítica legítima em “ataque coordenado” é o primeiro passo de qualquer ditador. Todo regime autoritário se apresenta como salvador da pátria ameaçada por inimigos internos.

Sigilo eterno: a marca registrada do autoritarismo

O Estadão acerta ao questionar: “por que uma investigação tão importante permanece em sigilo?”. A resposta é óbvia: porque não há nada para mostrar. O sigilo serve para esconder a ausência de provas e a natureza persecutória do inquérito.

Em qualquer democracia funcional, investigações têm prazo, transparência e controle externo. O inquérito das fake news não tem nada disso. É um cheque em branco para Alexandre de Moraes exercer poder sem limites ou prestação de contas.

O caso Vaza Jato expôs essa lógica perversa. Quando a Folha de São Paulo publicou conversas entre TSE e STF revelando coordenação ilegal, sofreu ameaças diretas. Glenn Greenwald confirmou publicamente que a Folha parou de publicar por medo de retaliações.

Essa é a democracia que Alexandre de Moraes diz defender: jornais censurados, críticos perseguidos e inquéritos eternos em sigilo absoluto. Qualquer semelhança com regimes autoritários não é mera coincidência.

A conivência da mídia: parceiros do golpe branco

O despertar tardio do Estadão revela uma verdade incômoda: a grande mídia foi cúmplice da deriva autoritária. Enquanto o STF perseguia Bolsonaro e seus apoiadores, jornais e emissoras fizeram vista grossa para os abusos.

A lógica era simples: “pode bater no Bolsonaro, Xandão”. Desde que o alvo fosse o presidente que odiavam, qualquer método era válido. Prisões arbitrárias, censura prévia, inquéritos secretos – tudo era justificável para derrotar o “fascista” Bolsonaro.

Essa cumplicidade teve preço. A mídia tradicional legitimou práticas que agora se voltam contra ela mesma. Criaram um Frankenstein que não conseguem mais controlar. Alexandre de Moraes não distingue entre críticos bolsonaristas e jornalistas progressistas quando se sente ameaçado.

O próprio editorial do Estadão admite que há ministros do STF querendo encerrar o inquérito, “ainda que lhes falte brilho para dizê-lo em público”. Ou seja, até dentro do Supremo há medo de confrontar Alexandre de Moraes. Esse é o tamanho do monstro que a mídia ajudou a criar.

Bolsonaro nunca foi a ameaça: era o antídoto

A ironia histórica é gritante. Quem foi acusado de autoritário durante quatro anos nunca desrespeitou uma decisão judicial, por mais absurda que fosse. Jair Bolsonaro cumpriu até ordem para não nomear Alexandre Ramagem na Polícia Federal – decisão que não tinha base legal alguma.

Enquanto isso, quem se apresentava como defensor da democracia rasgou a Constituição sistematicamente. Alexandre de Moraes concentrou em suas mãos poderes que nem Getúlio Vargas ou os militares ousaram reivindicar individualmente.

A diferença é clara: Bolsonaro operava dentro do sistema, mesmo quando contrariado. O STF criou um sistema paralelo de poder, sem controles ou limites. Quem realmente representa ameaça à democracia brasileira?

A resposta está nos fatos, não na narrativa. Ditadores não entregam o poder pacificamente após eleições perdidas. Democratas não abrem inquéritos secretos eternos contra opositores.

O preço da hipocrisia: democracia em frangalhos

O editorial do Estadão chega tarde demais. Durante sete anos, a mídia tradicional legitimou cada abuso do STF contra uma parcela significativa da população brasileira. Milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro viram seus direitos pisoteados com o aplauso da imprensa.

Agora que o dano está feito, querem se apresentar como defensores da legalidade. Mas o estrago já foi causado. A democracia brasileira está em frangalhos, corroída por dentro pelo próprio Poder que deveria protegê-la.

O problema não é apenas Alexandre de Moraes. É um sistema que permite que um único indivíduo concentre tanto poder sem qualquer controle efetivo. É uma mídia que aplaude autoritarismo quando serve aos seus interesses políticos.

Como bem observa o editorial, nenhuma ditadura dura para sempre. Mas o custo de reconstruir uma democracia depois que ela é destruída é sempre altíssimo. E a responsabilidade pelos danos não pode ser esquecida.

A crítica do Estadão é bem-vinda, mas insuficiente. É preciso reconhecer a própria cumplicidade no processo que criou este monstro autoritário. Só assim será possível pensar em soluções reais para a crise institucional brasileira.

Resta saber se outros veículos terão coragem de seguir o exemplo do Estadão ou continuarão fingindo que o problema não existe. O silêncio cúmplice já causou danos suficientes à democracia brasileira.

E você, acredita que essa mudança de postura da mídia é genuína ou apenas oportunismo político diante da nova realidade?

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