dezembro 11, 2025

Ludwig M

A censura digital global custou US$ 7,69 bilhões em 2024

A censura digital global custou US$ 7,69 bilhões em 2024

Em 2024, a indústria da censura estatal atingiu proporções épicas. Foram 296 apagões de internet em 54 países. A economia global perdeu 7,69 bilhões de dólares por causa desses bloqueios. Conflito político, eleições, protestos – sempre há uma desculpa conveniente para desligar a internet e, de quebra, a liberdade de expressão das pessoas.

Myanmar e Índia lideram esse ranking com 85 e 84 apagões, respectivamente. O Iraque desconectava a internet durante exames escolares. O Quênia bloqueava o Telegram nas mesmas situações. É autoritarismo disfarçado de pragmatismo.

O Paquistão sozinho perdeu 1,62 bilhão de dólares em 2025 com esses bloqueios. Sudão e Moçambique também foram devastados. Não estamos falando de economia abstrata, mas de gente que não consegue trabalhar, negócios que param de funcionar, vidas que ficam em suspenso.

Enquanto as economias afundam, os governos não se importam. O objetivo nunca foi econômico, mas político. Controlar a narrativa, impedir que as pessoas se comuniquem, silenciar a dissidência. Tudo em nome da segurança ou da ordem.

As big techs como parceiras da censura governamental

Enquanto governos autoritários usam o machado nos apagões de internet, as big techs usam a tesoura fina da moderação de conteúdo. E não é muito diferente. Plataformas como Facebook, Instagram e YouTube recebem dezenas de milhares de pedidos de remoção de conteúdo de governos todos os anos.

O X recebeu mais de 46.000 pedidos do Japão e mais de 9.000 da Turquia só no primeiro semestre de 2024. O mais assustador: a empresa cumpriu entre 68% e 80% desses pedidos. É interessante notar que, depois que Elon Musk assumiu o X e prometeu uma plataforma de liberdade de expressão, a taxa de compliance com pedidos governamentais subiu para 71% em 2024, comparada a 51% em 2021.

O Google recebeu 330.000 pedidos de remoção desde 2020, com a Rússia sendo responsável por 64% deles. O Reddit recebeu 160 pedidos de 26 países só no primeiro semestre de 2024. Essas empresas argumentam que estão apenas cumprindo a lei local. Conveniente, não é?

Como se a lei local não fosse frequentemente um instrumento de opressão estatal. As big techs não são neutras nessa história. São parceiras dos governos no controle da informação. Cada pedido atendido é um passo a mais na direção da censura sistemática.

Prisão e morte por posts na internet

Enquanto no ocidente discutimos shadow banning e algoritmos, em outros lugares do mundo as pessoas estão sendo presas, torturadas e condenadas à morte por simplesmente postarem algo na internet. Em 56 dos 72 países estudados pela Freedom House, pessoas foram detidas ou encarceradas por expressão online.

Na Tailândia, um ativista pró-democracia recebeu 28 anos de prisão por criticar a monarquia. Uma mulher em Cuba recebeu 15 anos por “propaganda inimiga” por compartilhar vídeos de protestos no Facebook. No Paquistão, um jovem de 22 anos recebeu sentença de morte e outro de 17 foi condenado à prisão perpétua, acusados de compartilhar conteúdo blasfemo via WhatsApp.

Esta não é uma questão abstrata de direitos humanos. 79% dos usuários de internet no mundo vivem em países onde compartilhar conteúdo político, social ou religioso pode resultar em prisão. E sabe o que acontece com isso? As pessoas param de falar, param de pensar livremente, ficam com medo.

Tudo exatamente como o Estado quer. O silenciamento não precisa ser total. Basta criar medo suficiente para que as pessoas se autocensurem. É um método eficiente e economicamente viável de controle social.

Inteligência artificial: a censura automatizada

Se os governos já têm dificuldades em censurar manualmente, por que não automatizar o processo? Myanmar desenvolveu uma tecnologia de IA capaz de bloquear VPNs e filtrar conteúdo de forma ainda mais agressiva. A China continua investindo pesadamente em IA para monitorar, identificar e censurar em tempo real.

Reconhecimento facial, análise de texto, detecção de palavras proibidas – tudo automatizado, tudo impossível de evitar. As mesmas plataformas que usam inteligência artificial para moderar conteúdo reclamam que a IA erra. O YouTube remove 94% dos vídeos violadores detectados automaticamente. Mas quantos vídeos legítimos caem junto?

A Meta usa IA para remover crimes de ódio, mas quantas postagens inofensivas são deletadas por erro do algoritmo? A verdade inconveniente é esta: quando se trata de censura, governos e big techs se complementam. Ambos usam a IA. Ambos cometem erros. Ambos afirmam estar protegendo as pessoas.

E ambos estão, na realidade, consolidando poder sobre o que podemos dizer e pensar. A automatização da censura é o sonho molhado de qualquer regime autoritário. Eficiência máxima com custo mínimo.

O fim da internet global

E se, em vez de uma internet global, tivéssemos várias internets – uma chinesa, uma russa, uma europeia, uma americana? Prepare-se, porque é exatamente isso que está acontecendo. A China já tem seu Grande Firewall, um sistema que isola completamente seus cidadãos da internet global.

A Rússia está construindo uma internet soberana, com tráfego roteado por pontos controlados pelo Estado. O Irã está desenvolvendo sua Rede de Informação Nacional para operar de forma independente. E até democracias ocidentais estão contribuindo para essa fragmentação com suas leis de soberania digital.

A União Europeia, com seu Digital Services Act, está efetivamente criando uma experiência de internet europeia diferente do resto do mundo. Tem gente que vê isso como proteção ao consumidor e regulação necessária. Mas sejamos honestos: é fragmentação, é balcanização da internet.

É o fim da internet global que prometemos ter construído. O resultado? Seu acesso à informação e sua capacidade de falar passam a ser determinados pela sua localização geográfica. É distópico, mas é exatamente para onde estamos caminhando.

A resistência digital existe, mas é insuficiente

Nem tudo é deprimente. Há pessoas lutando contra isso. Plataformas descentralizadas como Mastodon e outras redes sociais estão crescendo. VPNs explodiram em popularidade. Quando governos bloqueiam o X, os downloads de VPN disparam 1000% – isso aconteceu na Nigéria e na Turquia.

Aqui no Brasil, muitas pessoas aprenderam a usar VPN quando o governo bloqueou a rede social de Elon Musk. Ativistas estão desenvolvendo ferramentas anticensura: DNS criptografado, domain fronting e até internet via satélite, como a Starlink ativada na Ucrânia para contornar bloqueios russos.

A criatividade humana em contornar a censura é impressionante. Em Hong Kong, manifestantes usam AirDrop e redes mesh quando a internet é cortada. Iranianos usam Tor e Psiphon para acessar o Instagram. Mas aqui está o problema: isso é um jogo de gato e rato que nunca acaba.

Para cada nova ferramenta de evasão criada, censuradores desenvolvem novas técnicas. É exaustivo, e a maioria das pessoas não tem tempo nem conhecimento técnico para jogar esse jogo. A resistência existe, mas é minoritária e tecnicamente complexa.

Brasil segue o manual autoritário

Democracias não estão apenas observando ditadores censurarem – estão imitando-os. No Brasil, o governo de Lula usou o caso exposto pelo influenciador Felca sobre a adultização de crianças para defender uma lei de regulamentação das big techs, que supostamente vai proteger crianças de conteúdo sexual e combater a desinformação.

Claro que vai. É sempre assim. Ninguém nunca diz que quer uma lei para silenciar a oposição política. A desculpa é sempre proteger as crianças. É brilhantemente desonesto. A Europa está forçando plataformas a remover conteúdo ilegal rapidamente ou enfrentar multas de até 6% da receita global.

Parece razoável até você perceber que “conteúdo ilegal” pode ser interpretado de forma bem criativa por diferentes governos. Os Estados Unidos baniram usuários de plataformas por razões políticas. Você se lembra de Trump sendo banido do Twitter? Conservadores reclamam de shadow banning. Progressistas reclamam de amplificação de conteúdo de direita.

Enquanto isso, as plataformas ganham poder absoluto de decisão. A tendência global é óbvia: governos estão usando a “proteção” como desculpa para regular a internet. E quando um governo consegue fazer isso com sucesso, os outros copiam rapidamente.

O futuro distópico já chegou

A liberdade de expressão está perecendo. Não de forma dramática, com balas ou bombas, mas morrendo silenciosamente. Morte por mil cortes legais: banimentos de contas, algoritmos que suprimem certos assuntos, novas “proteções” contra ódio e desinformação.

Governos autoritários sempre censuraram. O problema agora é que democracias estão fazendo o mesmo, só que com melhor relações públicas. As big techs não são os heróis que alguns pensam. São empresas que lucram com cada clique, cada post, cada segundo que você fica na plataforma.

Se um governo solicitar a exclusão de conteúdo, elas removem sem pensar duas vezes. Se a sociedade demandar alguma “proteção”, elas lucram com a publicidade desse novo recurso de segurança. A internet que prometia ser livre, global e descentralizada está se tornando uma coleção de prisões digitais fragmentadas.

Seu governo local decide o que você pode ver e dizer. E o pior: a maioria das pessoas acha que está tudo bem, desde que seja para “proteger as crianças” ou “combater mentiras”. Bem-vindo ao futuro. Esperamos que goste, porque aparentemente escolhemos isso.

A questão que fica é: ainda há tempo para reverter essa tendência? Ou já aceitamos que a liberdade de expressão é um luxo do passado, incompatível com os tempos modernos?

A resposta a essa pergunta definirá que tipo de sociedade deixaremos para as próximas gerações. Uma sociedade livre ou uma prisão digital disfarçada de segurança.

Fontes

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