
O projeto de lei da dosimetria que reduz penas para crimes relacionados ao 8 de janeiro virou centro de uma polêmica política. Segundo o jornalista Mário Sabino, Flávio Bolsonaro “sequestrou” a candidatura presidencial de 2026. O preço do resgate seria justamente a aprovação desse projeto.
A tese é simples: Flávio aceita abrir mão da candidatura em troca da dosimetria. Com isso, o caminho ficaria livre para Tarcísio de Freitas emergir como candidato da direita. O Planalto já enxerga a situação dessa forma, apostando na troca.
Mas a narrativa tem furos evidentes. Ninguém “sequestra” candidatura em democracia. Qualquer político pode se candidatar quando quiser. Se Tarcísio, Caiado ou Zema querem disputar, nada os impede.
A questão real é outra: Bolsonaro domina a direita brasileira. E os próprios críticos sabem disso.
A dosimetria muda pouco para Bolsonaro
O projeto aprovado pela Câmara reduz penas para tentativa de golpe de Estado. Na prática, quem mais se beneficia são os participantes do 8 de janeiro. Para Jair Bolsonaro, o impacto é limitado.
Flávio queria anistia completa, não dosimetria. O projeto é “um passo na direção correta”, mas longe do ideal da família. Se realmente fosse uma negociação, o preço seria maior.
O texto ainda precisa passar pelo Senado. Depois, enfrentar eventual veto de Lula. Se vetado, o Congresso precisa derrubar o veto. São várias etapas até a aprovação definitiva.
Enquanto isso, a cúpula do PL nega qualquer retirada do nome de Flávio. Faz sentido: não dá para abandonar candidatura baseada em projeto ainda em tramitação.
O domínio Bolsonaro na direita brasileira
A narrativa do “sequestro” revela algo inconveniente para os críticos. Ela admite que Bolsonaro é sinônimo de direita no Brasil. Não existe direita relevante fora da órbita bolsonarista.
Se houvesse, Tarcísio já teria lançado candidatura própria. Caiado, Zema e outros também. Mas todos sabem que Flávio chegaria ao segundo turno de qualquer forma.
Tarcísio só seria candidato com apoio de Bolsonaro. Ele é bolsonarista, não centrão. Não representa “terceira via” coisa nenhuma. É continuidade do mesmo projeto político.
O discurso de “tirar votos do Bolsonaro sem trazer Bolsonaro junto” é pura ilusão. Impossível separar as duas coisas na direita brasileira atual.
A comparação equivocada com a Bolívia
Especialistas alertam que Flávio pode “implodir” a eleição, como aconteceu na Bolívia. A comparação ignora fatores essenciais do caso boliviano.
Na Bolívia, a esquerda foi destruída pela economia quebrada. Mesmo somando Evo Morales e Luiz Arce, não conseguiriam segundo lugar. A divisão interna não foi determinante.
O que matou a esquerda boliviana foi a gestão econômica desastrosa. Padrão que se repete em vários países. A economia sempre cobra o preço no final.
No Brasil, Lula enfrenta cenário similar. Economia em dificuldades, inflação pressionando, desemprego persistente. O candidato da direita que chegar ao segundo turno agregará todos os votos conservadores.
Por que o Planalto aposta na troca
O governo Lula prefere enfrentar Tarcísio a Flávio Bolsonaro. Tarcísio tem perfil mais palatável para o centro político. Flávio carrega mais rejeição em determinados segmentos.
Por isso o Planalto interpreta a dosimetria como “primeiro passo para trocar Flávio por Tarcísio”. Uma leitura conveniente, mas provavelmente equivocada.
Ironicamente, essa preferência pode beneficiar Flávio. Enquanto a esquerda ataca Tarcísio, Flávio fica protegido de críticas. Estratégia que pode se voltar contra o governo.
O foco em Tarcísio também revela o nervosismo petista. Sabem que qualquer candidato da direita pode vencer em 2026, dependendo da economia.
STF em momento de fraqueza?
A dosimetria chega em suposto momento de fragilidade do Supremo. Vazamentos sobre Alexandre de Moraes e críticas constantes criariam ambiente propício para a aprovação.
Na verdade, a dosimetria já havia sido negociada anteriormente com o STF. O projeto não surge do nada nem pega o Supremo de surpresa.
Mas é fato que o STF enfrenta questionamentos crescentes. Decisões controversias dos últimos anos geraram desgaste institucional significativo.
A aprovação da dosimetria pode ser vista como recuo estratégico. Uma forma de diminuir tensões sem ceder completamente às pressões políticas.
O jogo real por trás da candidatura
Flávio pode estar usando a candidatura como moeda de troca para outras negociações. Não necessariamente a dosimetria, mas acordos futuros mais amplos.
O PL já sinalizou que pode cobrar “ajustes” na candidatura. Provavelmente a formação de uma chapa mais ampla, com vice de outro partido.
A estratégia pode incluir nomes do mercado financeiro para “acalmar a Faria Lima”. Movimento típico de campanhas que buscam ampliar o apoio.
No final, tanto Flávio quanto Tarcísio representam o mesmo projeto. A discussão é mais sobre viabilidade eleitoral do que sobre diferenças ideológicas substantivas.
A narrativa do “sequestro da candidatura” reflete mais os desejos da mídia tradicional do que a realidade política. Bolsonaro domina a direita porque construiu essa hegemonia ao longo dos anos.
Querer contornar isso através de “acordos de cúpula” é subestimar a força do bolsonarismo na base eleitoral. O eleitor de direita sabe exatamente o que quer.
E você, acredita que a dosimetria foi realmente o preço negociado pela candidatura de Flávio?


