dezembro 10, 2025

Ludwig M

Tarifa de carro e aço: R$ 14 bilhões saem do seu bolso

Tarifa de carro e aço: R$ 14 bilhões saem do seu bolso

Governo anuncia nova arrecadação bilionária para 2026

O governo federal revelou oficialmente seu plano para fechar as contas de 2026. No relatório de receitas do PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual), aparece uma previsão explícita: R$ 14 bilhões a mais apenas com imposto de importação. Esse valor não é especulação – está publicado no site oficial do governo.

A medida tem como alvo principal carros e aço importados, especialmente produtos chineses. O discurso oficial fala em “proteção da indústria nacional” contra a avalanche de mercadorias asiáticas. Mas a realidade é diferente: trata-se de uma ferramenta fiscal disfarçada de política industrial.

Enquanto o governo prometeu no arcabouço fiscal um superávit de 0,25% do PIB em 2026 – cerca de R$ 35 bilhões -, estimativas independentes mostram um rombo próximo de R$ 100 bilhões. Alguém precisa pagar essa diferença de R$ 130 bilhões. E esse alguém não está em Brasília.

O brasileiro que quer comprar um carro, construir uma casa ou montar um negócio será obrigado a financiar mais uma meta fiscal impossível. A tarifa entra como receita no orçamento, mas sai como custo na vida real das pessoas.

A escalada tributária que nunca para

Nos últimos anos, o governo transformou a criação de impostos em linha de produção. A lista é extensa: aumento do IOF por decreto, fim da isenção de compras internacionais até US$ 50, reoneração de combustíveis, imposto sobre apostas esportivas, tributação de fundos imobiliários e fiagros.

Também houve aumento da CSLL para fintechs e bancos digitais, retomada da cobrança do DPVAT, majoração de impostos sobre armas e munições, reoneração do setor elétrico, nova tabela do IPI para bebidas e tributação de fundos exclusivos e offshore.

Agora chegou a vez das tarifas de importação. O governo descobriu uma forma “elegante” de aumentar impostos sem assumir publicamente que está fazendo isso. Esconde o tributo na etiqueta do produto e vende a narrativa de “defesa nacional”.

Se o objetivo fosse realmente proteger a indústria brasileira, o caminho seria reduzir a carga tributária absurda sobre quem produz no país. Mas isso significaria menos dinheiro para Brasília – e essa nunca foi uma opção considerada.

China bate recorde e Brasil paga a conta

A China ultrapassou pela primeira vez em sua história a marca de US$ 1 trilhão de superávit comercial apenas de janeiro a novembro de 2025. Nos últimos 12 meses, esse número já passa de US$ 1,2 trilhão. Isso significa que o país asiático está vendendo muito mais para o mundo do que comprando.

O modelo econômico chinês enfrenta problemas internos graves. A bolha imobiliária estourou, grandes construtoras quebram uma após outra, e o governo esconde dados de vendas de imóveis para evitar pânico. A resposta foi dobrar a aposta nas exportações subsidiadas.

Com as tarifas americanas reduzindo as vendas para os EUA, a China redirecionou sua produção excedente para outros mercados. A Europa vive déficit comercial de mais de 300 bilhões de euros com os chineses. O presidente francês Macron já declarou que os desequilíbrios estão “insuportáveis”.

No Brasil, as importações chinesas crescem mais rápido que nossas exportações. Nossa indústria perde competitividade a cada mês. E qual a resposta? Aumentar imposto no consumidor brasileiro para “resolver” uma crise geopolítica global.

O fracasso da “taxa das blusinhas” se repete

Esta não é a primeira vez que o governo usa proteção industrial como desculpa para arrecadar. A “taxa das blusinhas” seguiu exatamente o mesmo roteiro: discurso sobre defesa do varejo nacional, proteção ao pequeno lojista e combate à concorrência desleal chinesa.

O resultado foi previsível. O brasileiro pagou mais caro pelas roupas, o pequeno comerciante continuou sofrendo, e as grandes varejistas – que fizeram lobby pela taxação – depois assinaram acordos com as mesmas empresas chinesas que supostamente combatiam.

Protegeram alguém? Sim, mas não foi o povo. Foi o interesse de grandes grupos que queriam eliminar a concorrência barata para manter suas margens infladas. O consumidor brasileiro ficou com a conta.

Agora o filme se repete com carros e aço. A narrativa mudou, mas o resultado será o mesmo: Brasília arrecada, grandes empresas se protegem da concorrência, e o cidadão comum paga mais caro por tudo.

Impacto real no bolso do brasileiro

O setor automotivo já trabalha com projeção de aumento no preço dos veículos. Mais de 50% das peças usadas na indústria nacional têm alguma dependência externa. Se a tarifa sobe, o custo de produção explode. E esse custo vai direto para o consumidor final.

No caso do aço, a situação é ainda mais grave. O Brasil importa mais de 2 milhões de toneladas por ano, e esse número cresce constantemente. Qualquer aumento na tarifa impacta toda a cadeia: construção civil, galpões industriais, máquinas, equipamentos e logística.

O trabalhador que precisa trocar o carro vai pagar mais. A família que quer construir a casa própria vai desembolsar mais pelo aço. O pequeno empresário que precisa montar um galpão terá custos maiores. A inflação industrial se espalha por toda a economia.

Tudo isso para arrecadar R$ 14 bilhões e tentar tapar um rombo que já passa de R$ 90 bilhões. É como usar um band-aid para estancar uma hemorragia, mas cobrando do paciente pelo curativo.

A matemática que não fecha em Brasília

O governo prometeu no arcabouço fiscal entregar superávit de 0,25% do PIB em 2026 – algo entre R$ 35 e R$ 40 bilhões positivos no caixa. Mas projeções independentes mostram déficit próximo de R$ 100 bilhões. Como transformar -R$ 100 bilhões em +R$ 40 bilhões?

Existem apenas três caminhos: cortar gastos, reduzir o tamanho do Estado ou aumentar impostos. Brasília escolheu o terceiro, como sempre. É mais fácil arrancar dinheiro do contribuinte que mexer nos privilégios da máquina pública.

No PLOA de 2026 aparece claramente a linha dos R$ 14 bilhões extras com tarifas. Esse dinheiro não nasce do ar – sai do bolso de quem compra carro, de quem constrói, de quem empreende. A conta que deveria ser resolvida dentro do governo vai ser paga pelo setor produtivo.

Mesmo batendo recordes históricos de arrecadação, o rombo continua crescendo. Isso prova que o problema não é falta de dinheiro entrando. O problema é excesso de dinheiro saindo – e esse excesso permanece intacto.

Responsabilidade fiscal às custas do contribuinte

O governo vai aparecer nos jornais como exemplo de responsabilidade fiscal. As manchetes vão destacar o cumprimento da meta, a seriedade com as contas públicas, o compromisso com o equilíbrio. Mas por trás dessa narrativa, alguém paga a conta.

Esse alguém é o brasileiro que trabalha, produz, consome e investe. É quem compra o carro mais caro, paga mais pelo aço, arca com a inflação disfarçada de política industrial. Brasília mantém suas mordomias, e o povo fica mais pobre.

A verdade é simples: não é incompetência, é projeto. O Estado brasileiro não consegue se controlar, então controla o cidadão. Não consegue gastar menos, então arrecada mais. Não consegue ser eficiente, então força o contribuinte a ser eficiente em pagar impostos.

Enquanto o setor público permanece inchado, ineficiente e privilegiado, o setor produtivo é obrigado a sustentar essa estrutura com tarifas, tributos e taxas que nunca param de crescer. A conta sempre chega, mas nunca chega para quem deveria chegar.

O que vem pela frente

Esta tarifa sobre carros e aço é apenas o começo. Com um rombo de quase R$ 100 bilhões para tampar, o governo precisará de muito mais que R$ 14 bilhões extras. Outros setores já estão na mira, outras “defesas comerciais” já estão sendo estudadas.

O padrão está estabelecido: encontrar uma crise internacional, criar uma narrativa de proteção nacional, e transformar tudo em arrecadação. A fórmula funciona politicamente porque poucos enxergam o imposto escondido no preço final dos produtos.

O brasileiro médio não conecta o aumento do preço do carro com a nova tarifa de importação. Não relaciona o encarecimento da construção com a taxação do aço. E assim o governo consegue aumentar impostos sem assumir que está aumentando impostos.

Enquanto isso, nossa competitividade internacional despenca, nossos custos disparam, e nossa capacidade de gerar riqueza diminui. Estamos ficando mais pobres coletivamente para que Brasília continue rica individualmente.

A pergunta que fica é: até quando o brasileiro vai aceitar pagar a conta de um Estado que se recusa a se reformar? O debate está aberto, mas o cronômetro fiscal de 2026 já começou a contar.

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