dezembro 9, 2025

Ludwig M

Hugo Motta pauta dosimetria hoje: a punição do centrão ao Flávio

Hugo Motta pauta dosimetria hoje: a punição do centrão ao Flávio

Hugo Motta confirmou para esta terça-feira (9 de dezembro) a votação do PL da dosimetria na Câmara dos Deputados. A decisão surge como resposta direta à indicação de Flávio Bolsonaro para 2026, contrariando os planos do centrão que esperava a escolha de Tarcísio de Freitas. O texto agora disponível revela uma proposta bem mais limitada do que a anistia ampla negociada anteriormente.

O projeto apresentado pelo deputado Paulinho da Força consolida apenas a fusão dos crimes previstos nos artigos 359-L e 359-M do Código Penal. Essa mudança técnica impede que as penas sejam somadas quando alguém é condenado pelos dois crimes simultaneamente. Na prática, considera-se apenas a pena mais grave entre elas, reduzindo significativamente o tempo de prisão.

Para entender o impacto real, basta analisar o caso da influenciadora Débora Rodrigues, conhecida como “Débora do Batom”. Sua condenação de 14 anos seria reduzida para aproximadamente 9 anos e meio. Com a aplicação adicional da redução por “crime multitudinário”, poderia chegar a apenas 4 anos e meio de prisão.

A reação do centrão demonstra o quanto a decisão de Jair Bolsonaro incomodou. Paulinho da Força foi categórico: “Anistia para Bolsonaro está fora de questão”. A mensagem é clara – quem não negocia nos termos estabelecidos pelo sistema não recebe os benefícios prometidos.

O projeto da dosimetria: detalhes técnicos que importam

O texto do PL da dosimetria traz modificações específicas na Lei de Execução Penal (Lei 7.210/84). A principal alteração está no regime de progressão de pena, estabelecendo novos percentuais mínimos para diferentes tipos de crimes. Para crimes do Título I (contra a pessoa) e Título II (contra o patrimônio) do Código Penal, o preso primário precisará cumprir 25% da pena antes de progredir para regime menos rigoroso.

Essa mudança representa, na verdade, um endurecimento para parte dos envolvidos no 8 de janeiro. Atualmente, quem comete crime sem violência à pessoa cumpre apenas 16% da pena para progredir. O novo texto amplia esse conceito, incluindo crimes de dano ao patrimônio – exatamente o que aconteceu nos prédios dos Três Poderes.

A estratégia é sutil mas clara. O projeto beneficia parcialmente os manifestantes comuns, mas mantém as punições mais severas para as lideranças. É uma dosimetria política calculada, não uma anistia generosa. O Estado concede migalhas enquanto preserva o poder de punir exemplarmente.

Para os crimes contra o Estado Democrático de Direito (Título XII), curiosamente, mantém-se o regime atual de 1/6 da pena. Isso significa que os crimes mais graves politicamente continuam com progressão mais rápida, enquanto os crimes de dano ao patrimônio ficam mais rigorosos. Uma inversão de prioridades que revela as verdadeiras intenções do projeto.

Bolsonaro fora da negociação: o preço da independência política

O ex-presidente praticamente não se beneficia da dosimetria proposta. Sua condenação de aproximadamente 27 anos seria reduzida para apenas 21 anos – uma diferença irrelevante na prática. Como não foi enquadrado em “crime multitudinário”, não recebe a redução adicional de 1/3 a 2/3 da pena prevista no projeto.

Essa exclusão não é acidental. O centrão quer deixar claro que existem consequências para quem não segue o roteiro estabelecido. Flávio Bolsonaro deveria ter sido uma carta de negociação, não o candidato definitivo. A punição vem na forma de abandono político – Bolsonaro fica na cadeia enquanto o sistema segue funcionando.

A declaração de Paulinho da Força é reveladora: duvida da candidatura de Flávio porque “entregaria a eleição para Lula”. O raciocínio expõe a mentalidade do centrão – importa mais a governabilidade do sistema do que a representação popular. Se o povo escolheu Bolsonaro, o povo que se adapte às regras do jogo político.

“Não é incompetência. É projeto.” O isolamento de Bolsonaro serve como exemplo para futuras lideranças que pensem em desafiar o establishment. O recado está dado: ou você negocia dentro das regras estabelecidas, ou fica de fora completamente.

Flávio 2026: a consolidação involuntária de uma candidatura

Paradoxalmente, a birra do centrão pode estar fortalecendo exatamente o que queriam evitar. Ao recusar negociar com Flávio Bolsonaro, consolidam sua posição como herdeiro político natural. O filho assume não mais como plano B, mas como única opção viável da direita para 2026.

A resistência do sistema político tradicional funciona como selo de qualidade para o eleitorado bolsonarista. Se Paulinho da Força está incomodado, se Hugo Motta está contrariado, então Flávio deve estar no caminho certo. É a lógica do “quanto mais eles reclamam, melhor para nós”.

O cenário se desenha com Flávio enfrentando não apenas a esquerda, mas também o centrão que deveria ser aliado natural. Essa polarização pode ser eleitoralmente vantajosa, recriando o ambiente de “nós contra eles” que funcionou tão bem em 2018 e 2022.

Hugo Motta e seus aliados podem estar cavando a própria irrelevância política. Ao apostar que Flávio não tem chance, arriscam ficar de fora de um eventual governo de direita em 2026. A miopia política do centrão sempre foi subestimar a força do bolsonarismo nas urnas.

8 de janeiro: anistia parcial para crime político

O projeto da dosimetria representa uma anistia envergonhada – concede benefícios significativos mas evita assumir o caráter político da medida. Para a maioria dos manifestantes do 8 de janeiro, as penas seriam reduzidas drasticamente, com muitos podendo cumprir o restante em regime aberto ou domiciliar.

A redução por “crime multitudinário” é especialmente relevante. Reconhece implicitamente que punir manifestações políticas com rigor de crime comum é desproporcional. Dezenas de pessoas sairiam imediatamente da prisão ou teriam suas restrições substancialmente amenizadas.

Essa concessão parcial revela o desconforto do próprio sistema com a perseguição política em curso. Mesmo os defensores da “democracia” sabem que manter milhares de pessoas presas por manifestação política gera um custo político alto. A dosimetria permite recuar sem admitir o erro.

“O governo não perdoa. Apenas calcula o preço político de suas decisões.” A liberação dos presos comuns do 8 de janeiro serve para diminuir a pressão social, enquanto mantém as lideranças como exemplos. É gestão de crise, não justiça.

Centrão ferido: quando o fisiologismo encontra resistência

A reação desproporcional do centrão à indicação de Flávio Bolsonaro expõe a natureza do sistema político brasileiro. Não se trata de preferência ideológica ou análise eleitoral – é pura birra de quem se acostumou a ditar as regras do jogo. Paulinho da Força não consegue “nem sentar” de tão contrariado que ficou.

Essa dinâmica revela como funciona a política tradicional: tudo é negociável, desde que dentro dos termos estabelecidos pelos “donos do poder”. Bolsonaro pecou ao tomar uma decisão autônoma, sem consultar os intermediários que se julgam indispensáveis ao processo político brasileiro.

O centrão vive da intermediação, da negociação, do jogo de cadeiras que transforma votos em cargos e cargos em influência. Uma liderança que decide por conta própria quebra essa lógica, ameaça a relevância desses atores políticos. Por isso a reação emocional desproporcional à decisão de Bolsonaro.

Hugo Motta personifica essa mentalidade ao pautar a dosimetria não por convicção, mas por vingança. É a política como negócio pessoal, onde princípios são secundários em relação aos interesses do grupo. A democracia brasileira funcionando em sua forma mais crua e reveladora.

O jogo político de 2026 já começou

A votação da dosimetria marca oficialmente o início da corrida presidencial de 2026. O centrão aposta suas fichas na inviabilidade de Flávio Bolsonaro, enquanto a direita se organiza em torno de uma candidatura que ganha força exatamente pela oposição do establishment.

Essa polarização prematura pode beneficiar ambos os lados, mas prejudica especialmente o centro político. Ao escolher fazer oposição antecipada a Flávio, o centrão perde espaço de manobra para uma eventual negociação futura. É uma estratégia de alto risco baseada numa aposta eleitoral incerta.

Para a esquerda, assistir o centrão brigar com a direita é o cenário ideal. Lula se fortalece quando seus adversários se dividem, especialmente quando essa divisão acontece por razões menores, como a escolha entre Flávio e Tarcísio. A fragmentação da oposição sempre favorece quem está no poder.

“A política é a arte do possível, mas às vezes os políticos tornam impossível até o óbvio.” O centrão pode estar desperdiçando uma oportunidade histórica de se aliar a uma direita renovada, optando pela teimosia em lugar da estratégia de longo prazo.

Consequências práticas: quem ganha e quem perde

Se aprovada hoje, a dosimetria beneficiará imediatamente centenas de pessoas ainda cumprindo pena pelos eventos de 8 de janeiro. Muitas poderão sair da prisão ou migrar para regimes menos restritivos em questão de semanas. É um alívio concreto para famílias que vivem esse drama há dois anos.

Para o sistema político, representa uma válvula de escape que diminui a pressão social sem comprometer o exemplo que se quer dar. Os presos comuns são liberados, as lideranças permanecem punidas, e a “democracia” mostra sua face “magnânima” ao conceder perdão parcial.

Bolsonaro permanece como o grande derrotado da operação. Isolado politicamente, sem benefícios jurídicos significativos, e vendo seu movimento dividido entre a lealdade pessoal e a pragmática eleitoral. O ex-presidente paga o preço por ter subestimado a importância das articulações políticas tradicionais.

Flávio Bolsonaro emerge fortalecido, mesmo contra a vontade do centrão. A oposição cerrada do establishment valida sua posição como verdadeiro herdeiro político do pai, capaz de incomodar os mesmos atores que sempre se incomodaram com o bolsonarismo. É capital político construído através da resistência alheia.

A dosimetria de Hugo Motta não é generosidade – é cálculo político disfarçado de justiça. O sistema concede o mínimo necessário para diminuir a pressão, mantendo o máximo de poder punitivo para desencorajar futuras resistências. É assim que funciona a democracia brasileira: sempre uma barganha, nunca um direito.

Resta saber se o eleitorado brasileiro comprará essa narrativa em 2026. Será que a birra do centrão ajudará ou atrapalhará as chances de Flávio Bolsonaro? A resposta só virá nas urnas, mas uma coisa é certa: o jogo político nunca foi tão transparente em suas motivações mesquinhas.

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