
O governo Trump implementou uma nova política que nega vistos americanos para pessoas que trabalham com fact-checking, moderação de conteúdo e combate à “desinformação”. A medida atinge diretamente profissionais europeus e de outros países que atuam nessas áreas, incluindo jornalistas e trabalhadores de empresas de tecnologia.
A decisão não é propriamente uma novidade. Marco Rubio já havia sinalizado essa política em maio de 2025, mas agora ela foi efetivamente implementada pelo Departamento de Estado americano. A medida faz parte da guerra cultural entre Estados Unidos e Europa sobre censura e liberdade de expressão.
A Europa vem intensificando suas políticas de controle de conteúdo online, incluindo uma multa de 140 milhões de dólares contra o X (antigo Twitter). Leis como o Online Safety Act inglês e outras iniciativas similares têm gerado tensões diplomáticas crescentes com os americanos.
Para entender o impacto dessa decisão, é preciso analisar como ela afeta diferentes grupos e o que representa na disputa global pela liberdade de expressão. Os números mostram que essa não é apenas uma medida simbólica, mas uma política concreta que já está sendo aplicada.
A política de Marco Rubio em ação
Marco Rubio anunciou a nova restrição de vistos em 28 de maio de 2025, direcionada a “oficiais estrangeiros e pessoas que são cúmplices da censura americana”. Segundo ele, por muito tempo a América foi multada, assediada e cobrada por autoridades estrangeiras por exercer seu direito de liberdade de expressão.
A declaração de Rubio é clara sobre a filosofia por trás da medida: “Liberdade de expressão é essencial para o jeito americano de vida e um direito de nascença sobre o qual os governos estrangeiros não têm autoridade”. Esta visão reflete a perspectiva americana de direitos naturais, que existem independentemente de constituições ou governos.
“Para trabalhadores que trabalham para diminuir os direitos de americanos, não devem ter o privilégio de viajar para nosso país”, afirmou Rubio. A política se aplica a pessoas “seja na América Latina, Europa ou qualquer outro lugar”. Os dias de “tratamento passivo para aqueles que trabalham para diminuir o direito dos americanos acabaram”.
Agora, sete meses depois do anúncio, a política está sendo efetivamente implementada. Oficiais das embaixadas americanas receberam diretrizes para rejeitar pedidos de visto de pessoas que trabalham como fact-checkers ou em qualquer papel relacionado ao controle de “desinformação”.
A medida representa uma escalada significativa na disputa entre americanos e europeus sobre os limites da liberdade de expressão online. O que começou como tensões comerciais evoluiu para uma guerra diplomática sobre valores fundamentais das sociedades democráticas.
Quem está na mira da nova política
A administração Trump direcionou oficiais das embaixadas a rejeitar pedidos de vistos de pessoas que trabalham em diversas áreas relacionadas ao controle de conteúdo. Além de fact-checkers, a lista inclui profissionais de moderação de conteúdo, compliance e segurança online.
Os trabalhadores da OFCOM, equivalente britânico da Anatel, que implementa as regras do Online Safety Act na Inglaterra, estão especificamente na mira. Qualquer pessoa envolvida na aplicação dessa lei de censura não conseguirá mais visto americano.
A política se estende a todos os tipos de visto, incluindo jornalistas e turistas. Isso significa que um repórter europeu que trabalhe com verificação de fatos não poderá nem mesmo fazer turismo nos Estados Unidos. A medida atinge também profissionais que buscam o visto H1B, muito demandado por trabalhadores de tecnologia.
Interessante notar que as contas de redes sociais dos candidatos a visto também serão verificadas. Se ficou registrado em algum lugar que a pessoa trabalha com checagem de fatos, isso será usado contra ela no processo de análise do visto.
A medida inclui até mesmo pessoas que trabalham com temas aparentemente nobres como “segurança sexual de crianças e antissemitismo”. O problema não está nos objetivos declarados, mas na metodologia: usar censura para combater problemas sociais nunca funciona.
A guerra cultural por trás da medida
Esta política revela uma guerra cultural mais ampla sobre quem controla o discurso público. Durante décadas, a esquerda manteve controle sobre a narrativa através da mídia tradicional – televisão, jornais e rádio. Esse controle permitia espalhar ideologias de forma eficiente e sem contestação significativa.
As redes sociais mudaram completamente esse jogo. Agora existe contrabalanceamento de pontos de vista, e a narrativa oficial pode ser questionada em tempo real. É exatamente por isso que surgiu essa obsessão com fact-checking, combate à “desinformação” e controle de “discurso de ódio”.
O timing não é coincidência. Essas políticas de censura surgiram justamente quando a esquerda perdeu o monopólio da informação. Antes, quando controlavam os meios de comunicação, não havia preocupação com “desinformação”. Agora que perderam esse controle, querem regulamentar as redes sociais.
A medida americana representa um reconhecimento de que esta é uma guerra de valores fundamentais. De um lado, a visão americana de direitos naturais inalienáveis. De outro, a visão europeia de que o Estado deve tutelar o cidadão e decidir o que ele pode ou não ouvir.
Marco Rubio foi direto ao ponto: “Os dias de tratamento passivo acabaram”. Os americanos não vão mais aceitar que outros países tentem censurar suas empresas e cidadãos. Esta é uma declaração de independência informacional.
O precedente brasileiro que deveria preocupar
A situação tem paralelos preocupantes com o Brasil, especialmente com a aprovação da Lei Felca. Hugo Mota, presidente da Câmara, aprovou essa lei de forma unipessoal, numa “tratorada” que ignorou o debate democrático necessário.
A Lei Felca brasileira segue o mesmo padrão das leis europeias que estão sendo combatidas pelos americanos. Usa pretextos nobres – proteção de crianças, combate ao discurso de ódio – para implementar um sistema de censura estatal.
Profissionais brasileiros que trabalham com fact-checking e moderação de conteúdo já deveriam estar se preparando. Se a política americana se mantiver, eles também ficarão impedidos de viajar aos Estados Unidos. Isso inclui acadêmicos de universidades como a UFRJ que trabalham nessas áreas.
Para trabalhadores da Anatel que estão implementando políticas similares no Brasil, o aviso está dado. Trabalhar com censura – mesmo com nomes bonitinhos como “segurança online” – pode trazer consequências futuras para a vida pessoal e profissional.
O precedente americano mostra que a tolerância global com a censura está acabando. Países que valorizam a liberdade não vão mais aceitar passivamente que outros implementem controles autoritários sobre a informação.
Por que a censura nunca resolve os problemas reais
Ninguém é a favor de fake news, abuso sexual de crianças ou antissemitismo. Estes são problemas reais que merecem combate efetivo. O problema está na solução proposta: usar censura estatal para resolver questões sociais complexas.
A história mostra que dar ao Estado poder para decidir o que é “discurso legítimo” sempre termina mal. Este poder invariavelmente é usado para fins políticos, silenciando oposições e protegendo governos de críticas legítimas.
Fake news existem há séculos, muito antes da internet. Abuso de crianças e antissemitismo também são problemas antigos. A censura nunca foi eficaz para combatê-los. Pelo contrário: regimes que mais censuram são justamente os que mais praticam estes horrores.
A solução real passa pela educação, transparência e mais liberdade – não menos. Uma sociedade bem informada consegue identificar e rejeitar informações falsas. Uma imprensa livre consegue expor abusos. A própria sociedade civil pode escolher bloquear conteúdos que considera inadequados.
O que não pode acontecer é o Estado decidir unilateralmente o que os cidadãos podem ouvir, ler ou falar. Esta é a diferença fundamental entre uma democracia e uma ditadura: quem controla a informação controla a sociedade.
As consequências práticas da nova política
A medida americana terá impactos concretos imediatos. Jornalistas europeus que trabalham com fact-checking não conseguirão mais visto nem mesmo para turismo. Profissionais de tecnologia que atuam em moderação de conteúdo ficarão impedidos de buscar o visto H1B para trabalhar nos Estados Unidos.
Uma consequência provável é que muitos profissionais começarão a omitir essas atividades de seus currículos. Assim como aconteceu durante a ditadura militar brasileira, quando censores eventualmente passaram a trabalhar de forma anônima por vergonha da função.
Este movimento para o anonimato já representa uma vitória cultural. Quando profissionais sentem vergonha de admitir publicamente que fazem censura – mesmo com nomes bonitos como “fact-checking” – é sinal de que a sociedade reconhece a natureza problemática dessa atividade.
Para empresas de tecnologia, a medida cria um dilema. Continuar implementando políticas de censura para agradar governos europeus significa perder acesso a talentos americanos. É uma escolha entre mercados e ideologias.
A política também pode inspirar outros países a adotar medidas similares. Se os Estados Unidos conseguirem demonstrar que é possível resistir à pressão censória internacional, outras nações podem seguir o exemplo.
O futuro da liberdade de expressão global
A decisão americana marca um ponto de inflexão na disputa global sobre liberdade de expressão. Pela primeira vez em anos, um grande poder mundial está tomando medidas concretas para defender a livre circulação de ideias contra a censura estatal.
A medida representa mais do que política diplomática – é uma declaração de valores. Os americanos estão dizendo que direitos fundamentais não são negociáveis, mesmo sob pressão de aliados tradicionais como a Europa.
Para o futuro da internet global, isso pode significar uma bifurcação definitiva. De um lado, países que adotam o modelo americano de mínima interferência estatal no discurso. De outro, nações que seguem o padrão europeu de controle governamental sobre informação.
A questão central não é técnica, mas filosófica: os seres humanos são capazes de decidir por si mesmos o que querem ouvir? Ou precisam de tutela estatal para “protegê-los” de informações consideradas inadequadas por burocratas?
A resposta americana é clara: pessoas livres não precisam de censores. A resposta europeia é o oposto: o Estado deve proteger os cidadãos de si mesmos. Esta diferença fundamental de visão sobre a natureza humana definirá o futuro da civilização ocidental.
Profissionais que trabalham com censura – independentemente dos eufemismos usados – precisam entender que estão escolhendo um lado nesta guerra cultural. E que essa escolha pode ter consequências duradouras para suas vidas pessoais e profissionais.
A liberdade de expressão sempre foi a base de todas as outras liberdades. Sem ela, não existe democracia real, apenas teatrinho autoritário. Trump pode ter defeitos, mas nesta questão específica está do lado certo da história.
A pergunta que fica é: quantos outros países terão coragem de defender a liberdade contra a pressão global pela censura “do bem”?


