janeiro 1, 2026

Ludwig M

57 investigações contra brasileiros que criticaram Lula: de memes a nomes de Wi-Fi

O governo federal solicitou, nos últimos anos, ao menos 57 investigações por supostos crimes contra a honra do presidente Lula. Os alvos incluem desde quem gritou “Lula ladrão” nas ruas até um militar que batizou sua rede Wi-Fi com essa mesma frase. O caso mais inusitado? Memes que chamam o presidente de “Zé Pilantra” viraram alvo de inquérito policial.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.

A escalada sem precedentes das investigações

Os dados mostram que 20 apurações foram abertas em 2023, 12 em 2024 e 25 em 2025, todas sob sigilo. Para ter dimensão do salto, nos quatro anos de governo Jair Bolsonaro (PL), o Ministério da Justiça pediu 16 investigações de possíveis crimes contra a honra do presidente.

Os números revelam uma mudança radical na postura do Planalto. O novo mandato de Lula inaugurou uma postura mais ativa frente aos ataques públicos, especialmente nas redes sociais. Enquanto Bolsonaro enfrentava críticas constantes e optava, muitas vezes, por não acionar tanto o Ministério da Justiça, o atual governo prefere investigar e rebater formalmente as ofensas.

A estratégia levanta questionamentos sobre intimidação através do processo. A mensagem enviada aos brasileiros é clara – critique o presidente e enfrentará o peso da máquina pública. Os detalhes dos casos são sigilosos, e parte já foi arquivada. Mas o estrago já está feito.

Esta escalada acontece em ano pré-eleitoral. O PT enxerga 2026 como uma guerra e há quem interprete que pretenda silenciar a oposição antes mesmo da campanha começar. A liberdade de expressão tornou-se alvo de debate intenso no governo.

Do Wi-Fi ao WhatsApp: a caça às críticas

Outra apuração surgiu em agosto, quando a equipe de segurança de Lula percebeu uma rede de wi-fi nomeada “Lula Ladrão” durante reunião na 17ª Brigada de Infantaria de Selva, em Porto Velho (RO), que discutia a segurança de um evento com o presidente. O sinal teria partido do celular de um policial militar, que foi convidado a se retirar do local dada a “conotação ofensiva e potencialmente atentatória à imagem” de Lula, segundo documento da PF.

Um militar foi expulso de uma reunião por causa do nome de seu Wi-Fi – episódio que ilustra até onde chegou a sensibilidade governamental.

Outros casos mostram o alcance da perseguição. Em um deles, a PF anotou a placa e foi à casa da mulher que xingou o presidente com um microfone, de dentro de um Audi, no Alto de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo. Mais tarde, ela foi para a delegacia e disse ter sido “tomada por impulso”, que “nunca pensou que fosse dar problema” e que estava arrependida.

A Polícia Federal virou braço armado da sensibilidade presidencial. Agentes públicos gastam tempo e recursos investigando piadas e protestos. O Estado brasileiro persegue cidadãos por exercerem direito constitucional básico.

“Zé Pilantra”: quando o meme vira caso de polícia

Os inquéritos também alcançaram memes e montagens em redes sociais, como imagens que chamavam o presidente de “Zé Pilantra” ou o retratavam como a entidade Zé Pilintra. Uma investigação sobre a montagem que chamava Lula de “Zé Pilantra” tramitou de julho de 2024 a dezembro de 2025 e foi arquivada. O MPF afirmou que o presidente está sujeito a maior escrutínio público e que a publicação tinha cunho político, não ofensivo à honra.

O Ministério Público arquivou o caso após 17 meses de investigação. O MPF arquivou o inquérito policial, afirmando que o presidente da República está sujeito a maior exposição e ao escrutínio da sociedade, “devendo ter maior tolerância às críticas e às cobranças”. A Procuradoria ainda disse que a publicação teve cunho político, com objetivo de criticar ou demonstrar oposição ao presidente, não de atingir a sua honra. Ou seja: gastou-se dinheiro público para investigar uma piada óbvia.

O irônico é que a própria investigação deu vida ao meme. Antes conhecida por poucos, a piada “Zé Pilantra” ganhou notoriedade nacional após virar caso de polícia. O governo conseguiu o efeito contrário do pretendido.

As redes sociais explodiram com variações do meme. “Não quero trabalhar amanhã, Zé Pilantra”, “Devolva a aposentadoria dele, Zé Pilantra” – a internet transformou a investigação em combustível para mais sátiras. A tentativa de censura multiplicou o que pretendia calar.

Pablo Marçal e o padrão seletivo da Justiça

Uma delas diz respeito a uma afirmação do influenciador Pablo Marçal de que Lula “desviou mais de R$ 1 trilhão”. A Procuradoria da República disse que o então candidato a prefeito de São Paulo fez críticas políticas, o que seria diferente de “caluniar, difamar ou ferir a honra alheia”.

O caso Marçal expõe a incoerência do sistema. Declaração sobre desvio de trilhão foi considerada “crítica política legítima” e arquivada. Mas chamar o presidente de “Zé Pilantra” demandou 17 meses de investigação. A seletividade jurídica é gritante.

A diferença está no alcance e na influência. Marçal tem milhões de seguidores e poder político real. Cidadãos comuns que fazem piadas são mais fáceis de intimidar. O Estado brasileiro persegue os fracos e negocia com os fortes.

Esta é a lógica autoritária em funcionamento. Críticos influentes recebem tratamento diplomático. Brasileiros anônimos enfrentam todo o peso da máquina estatal. A lei não é igual para todos – é interpretada como instrumento de poder político.

O paradoxo dos cartazes e da injúria racial

Também foi aberto inquérito contra uma mulher que se aproximou da casa de Lula em São Paulo, em dezembro de 2024, com cartazes criticando o presidente e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). Ao ser abordada por agentes da Polícia Federal, chamou um deles de “macaco”. Ela foi denunciada pelo Ministério Público Federal por injúria racial.

O caso ilustra a confusão conceitual do governo. Protestar com cartazes é direito constitucional básico. Chamar policial de “macaco” é crime real de injúria racial. Mas ambos foram tratados como ofensas ao presidente inicialmente.

A mulher foi processada pelo que realmente importa – o racismo. O protesto político deveria ser irrelevante juridicamente. Mas o governo mistura direito legítimo com crime real, criando perseguição política disfarçada de combate ao racismo.

Esta confusão não é acidental. É estratégia deliberada para criminalizar protesto político. Ao juntar críticas legítimas com crimes reais, o Estado justifica a repressão generalizada.

Ameaças reais versus sátira política

Também houve investigação motivada por um áudio enviado em grupo de WhatsApp no qual uma mulher ameaçava “pegar um revólver e furar ele todo na bala”, episódio que levou o próprio Lula a cobrar apuração. Este caso tem fundamento legal claro – ameaça de morte é crime grave que merece apuração.

A diferença entre ameaça real e sátira política deveria ser óbvia. Uma mulher prometendo matar o presidente com revólver merece investigação policial. Chamar político de “Zé Pilantra” é exercício democrático básico.

Mas o governo nivela por baixo propositalmente. Ao equiparar ameaça de morte com piada, transforma toda crítica em potencial crime. A estratégia é clara: criar medo generalizado de criticar o poder.

O resultado? Autocensura. Brasileiros começam a pensar duas vezes antes de fazer piada ou protestar. Quando cidadãos têm medo de exercer direitos básicos, a democracia já morreu na prática.

A comparação reveladora com Bolsonaro

Nos quatro anos de governo Jair Bolsonaro (PL), o Ministério da Justiça pediu 16 investigações de possíveis crimes contra a honra do presidente. Em três anos do novo governo Lula, o cenário é outro: já são 57 pedidos de investigação, praticamente triplicando o total.

Bolsonaro enfrentou críticas muito mais duras e constantes. Era chamado diariamente de “genocida”, “fascista” e “miliciano” por artistas, jornalistas e políticos. Mesmo assim, recorreu menos ao aparato jurídico que o atual governo.

O novo mandato de Lula inaugurou uma postura mais ativa frente aos ataques públicos, especialmente nas redes sociais. Enquanto Bolsonaro enfrentava críticas constantes e optava, muitas vezes, por não acionar tanto o Ministério da Justiça, o atual governo prefere investigar e rebater formalmente as ofensas.

A diferença não está no volume de críticas recebidas. Está na mentalidade autoritária. Lula e o PT sempre tiveram dificuldade em aceitar oposição. Agora, com controle total do aparato estatal, transformaram sensibilidade pessoal em política pública.

MBL arquivado, cidadão comum perseguido

Em outubro, a Justiça Federal arquivou um inquérito policial contra seis integrantes do MBL que gravaram vídeos e gritaram “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão” durante evento com o presidente em Osasco (SP). Nesse caso, o MPF disse que o contexto de “profundo acirramento” político do país exige observar a “proporcionalidade das medidas”.

Integrantes do MBL gritaram “Lula ladrão” e foram absolvidos por “proporcionalidade”. Cidadão comum faz piada na internet e vira alvo de inquérito. O sistema de duas velocidades está funcionando perfeitamente.

A “proporcionalidade” só vale para quem tem visibilidade política e capacidade de reação. Brasileiros anônimos não merecem a mesma consideração jurídica. Seus direitos são proporcionalmente menores.

Esta seletividade revela a natureza política das perseguições. Não se trata de defender a honra presidencial. É intimidação calculada contra quem não pode se defender adequadamente.

A internet que o governo não compreende

O governo demonstra total incompreensão sobre como funciona a internet moderna. Imagina que censurar 57 pessoas vai calar milhões de usuários. É mentalidade pré-digital aplicada à era das redes sociais.

Na internet, informação é descentralizada. Todo mundo produz e repassa conteúdo. Atacar uma fonte apenas multiplica o alcance da mensagem. O “efeito Streisand” deveria ser lição básica de comunicação governamental.

Cada processo vira notícia. Cada investigação gera mais memes. Cada tentativa de censura alimenta mais críticas. O governo conseguiu transformar piada menor em fenômeno nacional.

A estratégia fracassa tecnicamente, mas há quem interprete que funcione politicamente. O objetivo não é calar a internet – é intimidar indivíduos. Quando pessoas têm medo de postar, compartilhar ou comentar, o silêncio se espalha organicamente.

O custo da perseguição estatal

Cada investigação custa dinheiro público. Policiais federais, promotores, juízes e serventuários gastam tempo em casos frívolos. Recursos que poderiam combater crimes reais são desperdiçados com investigação de piadas.

A reportagem também localizou outros três casos em que o governo determinou a apuração sobre pessoas que teriam gritado “Lula ladrão” perto do carro ou do local em que o presidente estava. Em um deles, a PF anotou a placa e foi à casa da mulher que xingou o presidente com um microfone, de dentro de um Audi, no Alto de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo.

Imaginem a cena: policiais federais batendo na porta de cidadã porque ela gritou “Lula ladrão” de dentro do carro. Recursos da União gastos para investigar protesto legítimo. Dinheiro do contribuinte financiando paranoia presidencial.

O Brasil enfrenta epidemia de violência, corrupção sistêmica e crise econômica. Mas a prioridade é investigar quem faz piada com o presidente. As prioridades do Estado brasileiro estão invertidas.

2026: o ano da guerra jurídica

As investigações são interpretadas por críticos como estratégia eleitoral disfarçada de defesa da honra. Há quem acredite que o PT pretende chegar a 2026 com oposição silenciada por medo. Cada processo é visto como investimento na reeleição presidencial.

A lógica é simples: se críticos têm medo de se manifestar, não produzirão conteúdo contra o governo. Sem críticas visíveis, a impressão é de que tudo vai bem. A censura prévia funcionaria por intimidação.

Influenciadores, humoristas e cidadãos comuns já calculam o risco antes de criticar. Quando a liberdade de expressão vira cálculo de custo-benefício, a democracia está ameaçada.

O governo estaria construindo ambiente de medo para 2026. Quer eleição sem oposição real, apenas debate controlado. É estratégia autoritária clássica: não proíba formalmente, apenas torne perigoso exercer direitos.

A democracia brasileira em risco

Quando o Estado persegue cidadãos por piadas, a democracia não está funcionando. Quando militar é expulso por nome de Wi-Fi, o autoritarismo já se instalou. Quando meme vira caso de polícia, a liberdade morreu.

O Brasil está vivenciando erosão democrática silenciosa. Não há decreto proibindo críticas. Há apenas medo generalizado de criticar. O resultado prático é o mesmo que censura formal.

A comparação com outros governos é inevitável. Nem mesmo ditadura militar perseguia sistematicamente piadas sobre presidentes. O atual governo superaria regimes abertamente autoritários na paranoia com críticas.

A pergunta que fica é simples: em que país queremos viver? Um onde cidadão pode criticar governante sem medo, ou outro onde piada vira caso de polícia? A resposta define o futuro da democracia brasileira.

Não é incompetência. Há interpretações de que seria projeto deliberado. Cada investigação frivola, cada processo absurdo, cada intimidação silenciosa construiria o ambiente perfeito para perpetuação no poder. O Estado brasileiro teria virado instrumento de uma facção política.

E você, ainda acha que isso é defesa da honra presidencial ou já reconhece a estratégia autoritária em curso?


Fontes e Referências

  1. Reportagem sobre as 57 investigações – Bem Paraná
  2. Cobertura das investigações – Diário do Centro do Mundo
  3. Análise dos inquéritos – Revista Oeste
  4. Caso Zé Pilantra – Estado de Minas
  5. Comparação com governo Bolsonaro – Minha Fofoca
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