Ilustração sobre campanha coordenada de influenciadores digitais atacando Banco Central

janeiro 8, 2026

Ludwig M

46 perfis de fofoca possivelmente recebem dinheiro para atacar Banco Central em campanha milionária

Possivelmente pelo menos 46 perfis em redes sociais coordenaram uma ofensiva digital contra o Banco Central entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Páginas como Alfinetei (com 25,3 milhões de seguidores), Futrikei (2,4 milhões) e outras administradas por grupos como Banca Digital, Grupo Farol e Deubuzz, passaram a produzir conteúdo político no auge da crise. O que chama atenção? São páginas de fofoca, entretenimento e celebridades que nunca falaram de economia antes.

Nota editorial: Este conteúdo tem caráter analítico e opinativo, baseado em informações públicas e reportagens amplamente divulgadas (com links para as fontes). Não afirma como fatos comprovados a prática de crimes ou ilícitos, nem substitui decisões judiciais. Seu objetivo é promover reflexão crítica sob uma perspectiva editorial libertária.

O projeto milionário por trás dos ataques

Nos dois casos apontados pelo jornal, o conteúdo a ser postado fazia parte de um projeto chamado DV, as iniciais do dono do banco Master, Daniel Vorcaro. A estratégia não foi pequena — foi milionária mesmo. O vereador Rony Gabriel (PL-RS) afirmou que foi procurado no fim de dezembro com a promessa de remuneração milionária para “ajudar na disputa política contra o sistema”.

A mensagem enviada aos influenciadores era cristalina: queriam comprar opinião na cara dura. O método? Simples assim. A escolha desse tipo de canal sugere uma tentativa de ampliar o alcance da narrativa para além do público especializado, explorando audiências massivas e pouco familiarizadas com os detalhes técnicos do caso.

Afinal, essa estratégia sempre existiu na mídia tradicional. Agora descobriram que é mais barato comprar perfis de fofoca na internet. Quem diria que a discussão sobre liquidação bancária seria pauta de páginas que falam de Big Brother Brasil? Isso mostra como o dinheiro compra qualquer narrativa — desde que o preço seja certo.

A rede de influência dos perfis de entretenimento

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a Alfinetei integra um grupo controlado por três sócios, ligados a pelo menos cinco empresas. O principal nome é João Guilherme Chagas Gabriel, listado como sócio-administrador dessas companhias. Por trás da fachada de entretenimento, existe uma máquina de propaganda bem estruturada.

A página é vinculada a ao menos cinco empresas formalmente registradas e a uma rede de perfis que, somados, alcançam cerca de 40 milhões de seguidores. São 40 milhões de pessoas que seguem páginas de fofoca e de repente recebem propaganda política disfarçada de notícia. Coincidência? Claro que não.

O Alfinetei publica conteúdos de alto alcance que mesclam política, temas institucionais e fofocas sobre celebridades. Muitas das postagens são acompanhadas do selo de divulgação de uma casa de apostas, identificada na biografia do perfil como embaixadora da página. A estratégia é clara: misturar entretenimento com propaganda para que o público não perceba a manipulação.

Estas páginas funcionam como agências de publicidade disfarçadas. A descrição institucional divulgada pelo grupo afirma: “Somos um grupo de criadores, redatores e curiosos da cultura pop brasileira e internacional dispostos a compartilhar as últimas novidades através das redes sociais”. Mas não explicam quando vendem espaço para campanhas políticas. Por que será?

Como páginas de fofoca viraram armas políticas

Boa parte deles atua em páginas de entretenimento e fofoca, sem histórico de produção de conteúdo ligado a temas econômicos, financeiros ou regulatórios. De repente, perfis que falam de casamento de famosos começam a defender banqueiros investigados por questionamentos regulatórios. Não é estranho?

A tática é simples: usar a confiança que o público tem em páginas de entretenimento para vender narrativas políticas. O cruzamento entre entretenimento, publicidade e temas sensíveis da política econômica despertou desconfiança inclusive entre internautas, que passaram a questionar a credibilidade das informações nos campos de comentários. Até os próprios seguidores perceberam que algo estava errado.

E mais: segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, boa parte dos perfis envolvidos não é especializada em economia ou assuntos financeiros, mas pertencem a páginas de entretenimento e “fofoca” com grande alcance. É o mesmo modelo usado pela televisão — pegar apresentadores populares para vender narrativas políticas.

O que não disseram é que estavam sendo pagos. A presença de ataques em páginas de “fofoca” chamou a atenção de usuários, que passaram a questionar o teor das publicações nos comentários. Quando o público percebe que algo está errado, é porque a manipulação foi grosseira demais.

O verdadeiro gabinete do ódio revelado

Por anos acusaram a direita de ter um “gabinete do ódio” promovendo ataques nas redes. Nunca encontraram evidências. Agora aparecem ao menos 40 perfis, muitos ligados a páginas de entretenimento e fofoca, que amplificaram críticas ao regulador em meio à disputa jurídica no STF e no TCU. O gabinete do ódio existe, mas não é da direita.

A ofensiva digital — que ganhou intensidade entre o final de dezembro e o início de janeiro — é marcada por postagens sincronizadas com conteúdo repetitivo e informações enviesadas, criticando a atuação do BC na decisão que culminou na liquidação do Master. São 46 perfis postando a mesma coisa ao mesmo tempo. Isso não é coincidência.

A Febraban identificou um aumento abrupto de publicações concentradas em um intervalo de cerca de 36 horas. A própria federação bancária confirmou que houve coordenação. Não foi movimento espontâneo — foi campanha paga.

O método é sempre o mesmo: criar narrativas específicas, espalhar através de múltiplos canais e fingir que é opinião pública. Aliás, essa é a especialidade de quem tem muito dinheiro e pouco apreço pela verdade.

Renato Gomes: o alvo principal dos ataques

O ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, é um dos principais alvos. Foi a área dele que recomendou o veto à compra do Master pelo BRB e subsidiou os achados posteriormente relatados ao Ministério Público Federal. Gomes foi um dos últimos diretores indicados por Bolsonaro no Banco Central. Seu mandato terminou em dezembro de 2025.

Numa postagem de quatro dias atrás no Instagram, em 2 de janeiro, o perfil @divasdohumor relata que a gestão de Renato Gomes no BC deixou um cenário de instabilidade no mercado financeiro. “Divas do Humor” falando de política econômica? Alguém está pagando essa conta — e não é pouco.

Conforme apurado pelo Estadão, embora postagens mencionem o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente da Febraban, Isaac Sidney, o foco principal das publicações recaiu sobre o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Dias Gomes. Foi a diretoria comandada por Gomes que recomendou o bloqueio da operação de venda do Master ao BRB.

A estratégia é clara: atacar quem tomou a decisão técnica de liquidar o banco. Gomes fez seu trabalho de proteger o sistema financeiro brasileiro, mas isso não interessa a quem perdeu dinheiro com a situação. É mais fácil culpar o regulador que fiscaliza do que assumir que se envolveu em negócio problemático.

A internet descentralizada contra a propaganda paga

A boa notícia é que a manipulação não funcionou como esperado. A internet descentralizada tem seus problemas, mas também tem sua defesa natural: a informação alternativa. Quando 46 perfis postam a mesma coisa, outros milhares questionam e investigam.

Diferentemente da época da televisão — onde quem controlava a programação controlava a narrativa —, hoje qualquer pessoa pode pesquisar, questionar e expor contradições. É exatamente isso que aconteceu com o caso Master. Por mais dinheiro que tenha sido gasto, não conseguiram comprar todas as vozes.

O modelo antigo funcionava porque a informação era centralizada. Você assistia ao Jornal Nacional e acreditava. Hoje temos centenas de canais independentes, blogs, perfis que não estão à venda. É impossível comprar todo mundo — e isso é libertador.

Por isso a estratégia mudou: em vez de convencer todo mundo, tentam confundir. Criam dúvida sobre quem está certo, sobre qual informação é confiável. Mas mesmo essa tática tem limite quando os fatos são muito claros — e quando o cidadão comum tem acesso à informação livre.

Fontes

Compartilhe:

Deixe um comentário